O Egito se prepara nesta sexta-feira para um dia de manifestações por ocasião do segundo aniversário do início da contestação popular que derrubou o presidente Hosni Mubarak em 2011, em um clima de tensão política e de crise econômica.

'Será um longo dia porque os egípcios não aguentam mais', considerou um manifestante, Mohammed Abdullah.

Milhares de pessoas começaram a se reunir desde cedo na emblemática Praça Tahrir e seus arredores, no centro do Cairo, onde outros passaram a noite.

Eles gritavam 'Abaixo o poder do Guia' da Irmandade Muçulmana, da qual faz parte o presidente islâmico Mohamed Mursi.

Na quinta-feira, confrontos esporádicos foram registrados durante a tarde e início da noite entre a polícia e manifestantes que tentavam destruir um muro de concreto para liberar circulação pelo centro da cidade. Cerca de 20 pessoas ficaram feridas, segundo uma fonte médica.

A oposição, formada por movimentos de esquerda e liberais, convocou protestos em todo o país contra o presidente Mursi e a Irmandade Muçulmana, recuperando as mesmas palavras de ordem utilizadas dois anos atrás: 'Pão, liberdade, justiça social'.

'Tomem as praças para cobrar as reivindicações da revolução', pediu no Twitter Mohamed ElBaradei, uma das principais figuras da oposição laica.

'Que Deus proteja o país', foi a manchete do jornal independente Al-Shuruq, enquanto o jornal governamental Al-Gomhuriya instou a calma, pedindo ao povo para 'permanecer ao lado da nação'.

Protestos estão previstos para acontecer na Praça Tahrir e em frente ao palácio presidencial de Heliopolis, na periferia da capital, assim como em várias cidades, como Alexandria (norte) e Assiut (centro).

As forças de ordem devem reforçar sua presença nos locais das aglomerações, indicou uma fonte da polícia.

Na quinta-feira à noite, Mursi fez um apelo a seus compatriotas a celebrar 'de maneira pacífica e civilizada' o segundo aniversário da revolta.

O secretário-geral das Nações Unidas, Ban Ki-moon, pediu aos egípcios para que mantenham 'os princípios universais do diálogo pacífico e da não-violência'.

A Irmandade Muçulmana, não se manifestou oficialmente. Para marcar o aniversário, lançaram uma iniciativa chamada de 'Juntos construiremos o Egito', reunindo uma série de ações sociais e de caridade.

Mas o clima promete ficar pesado com o anúncio, esperado para sábado, do veredito dos supostos responsáveis pela morte de 74 pessoas em uma partida de futebol em Port-Said (noroeste), em fevereiro de 2012.

A torcida organizada 'Ultra' do time Al-Ahly, da qual vazia parte a maioria das vítimas, ameaça manifestações violentas e uma 'revolução' se não conseguir justiça.

Dois anos após o terremoto político da revolta, o país ainda luta para encontrar um equilíbrio entre um poder que conta com a legitimidade das urnas e seus adversários que condenam o surgimento de um sistema autoritário dominado pela Irmandade Muçulmana.

O país também enfrenta uma grave crise econômica, com a queda dos investimentos estrangeiros, a queda no turismo e um déficit orçamentário que voltou a aumentar.

Hosni Mubarak, de 84 anos, doente e condenado à prisão perpétua, espera seu julgamento em meio à indiferença de grande parte da população, que o considera pertencente ao passado.