E, enfim, o dia 21 de dezembro de 2012 chegou. Obviamente que o mundo, assim como o vemos e o entendemos, não chegou ao fim. Continua exatamente como ontem. Mas o que podemos extrair de tantas “previsões” apocalípticas? Por que anos após anos datas são apontadas como marcos finais?

Interessante a ponderação sobre o tema. Virada de séculos, de milênios, datas coincidentes, como 01/01/01 ou 10/10/10 ou 12/12/12, e a mais esperada de todas 21.12.2012, sempre alarmaram os seres humanos e isso se deve, em especial, ao fato incontroverso de que o desconhecido é assustador, não saber o que ocorre após o “fim” é amedrontador, assim como esperar por este “fim” pode ser angustiante – até para quem não acredita.

O misticismo sempre fez parte da racionalidade humana. Ainda que esta afirmação pareça contraditória, não é. Os homens, enquanto seres racionais, nem sempre possuíram o conhecimento que detêm hoje e para muitos fenômenos – assim como hoje – que não conseguiam explicar atribuíam ao desconhecido, ao místico, ao superior, ao transcendente, àquilo que desconheciam, mas que era mais fácil atribuir-lhe do que tentar explicá-lo.

E assim caminha a humanidade. Sua fragilidade frente ao desconhecido a faz temer sempre o tal “juízo final”, resquício do período da Idade Média, talvez, mas se fôssemos pagãos não pensaríamos como os maias e tantos outros povos místicos? Na verdade, pensar em “se” e condicionantes quaisquer não contribui com o raciocínio, apenas incentiva mais “se”.

Entretanto, há que se considerar que o mundo tem se barbarizado. Regras sociais para muitos inquestionáveis são para outros tantos facilmente desconsideradas. Mães abandonando recém-nascidos, pais molestando e abusando filhos, filhos matando pais, desrespeitando-os, agredindo-os (física e moralmente). Os jovens já não veem os mais velhos com respeito e admiração, os mais experientes já não se impõem e não se preocupam em transmitir valores e exemplos.

A sociedade tem perdido referências, valores, não reconhece suas próprias raízes e se satisfaz em ser mera replicadora. Os jovens, os adultos, as crianças... Todos se comportam da mesma forma, usam as mesmas roupas, falam sobre os mesmos assuntos e se interessam pelas mesmas coisas. Não há troca, não há crescimento e evolução continuada, simplesmente assimilação “por osmose”.

E já não se sustenta a postura de culpar a mídia por tudo. Se ela tem o poder que tem e manipula a massa como faz, não é por sua “culpa”, mas por seu “mérito”, “culpa” da sociedade, que se acomoda, que tem preguiça de pensar, de questionar e arguir. Que tem orgulho de dizer: “tal comportamento me dá preguiça” (referindo-se a discussões sobre obviedades, segundo o “intelectualóide”).

Mas o debate é sempre salutar e perder tempo discutindo com quem quer que seja é sempre construtivo, continuamente é possível encontrar formas diferentes de ver e abordar um mesmo assunto, e incentivar a crítica e a discussão pode ser muito mais saudável para a sociedade do que simplesmente ignorar as opiniões divergentes.

O mundo não acabou, mas o planeta passa por transformações que não começaram ontem e não terminarão amanhã, com certeza não aponta para um futuro melhor que o presente e não agir é contribuir para o caos social em que nos encontramos.

Apontar erros de gestores é papel da sociedade, mas sugerir e contribuir também. Agir por si na esperança de inspirar comportamentos é apenas o primeiro passo, ser solidário e generoso pode ser o segundo, daí em diante é mudança de comportamento individual; é ajudar a quebrar o círculo vicioso que transforma crianças em pequenos adultos, educados pela televisão e com discurso de velhos experientes.

O Mundo não acabou!

“Nós somos a geração, não podemos nos dar ao luxo de esperar. O futuro começou ontem e já estamos atrasados. (...) Nós não precisamos esperar pelo destino, nós podemos ser a mudança que queremos ver no mundo”*.

 

*John Legend em If You’re Out There, 2008, inspirado pela campanha de Barack Obama e pela famosa frase de Gandhi.