"Um caso triste é o de uma garotinha, que devia ter uns 8 anos. A vila onde ela estava foi bombardeada. Na fuga, caiu e um galho furou o seu olho". O relato do médico brasileiro Paulo Reis, da organização Médico Sem Fronteiras (MSF), ilustras situações corriqueiras no Sudão do Sul, onde passou três meses. O país é o mais novo do mundo - tornou-se independente do Sudão há um ano, mas ainda enfrenta conflitos tribais e disputas por petróleo com vizinho. A violência fez milhares fugirem para o sul em busca dos campos de refugiados, onde a MSF e o Comitê Internacional da Cruz Vermelha (CICV) tentam ajudar a população.
"Ela veio para o nosso campo e a gente pôde evitar que houvesse infecção, mas não tivemos como salvar o olho. Eram duas irmãs gêmeas. Uma, por azar, teve esse problema. Evitamos o pior, mas infelizmente não conseguimos resolver". O caso da menina com o ferimento no olho foi um dos vários envolvendo crianças que o médico da MSF tratou no campo de refugiados de Doro, no Sudão do Sul. "As crianças são a população mais vulnerável quase sempre" em situações de conflito, disse ele.
Tratamento de crianças mal nutridas
Segundo Reis, a maioria das crianças que precisam de atendimento médico sofre de desnutrição e tem menos de 5 anos. "Há casos de crianças desnutridas, que chegam muito ruins. Mas em geral, em poucos dias, se recuperam bastante e, de repente, começam a brincar", contou, acrescentando que um sorriso de uma criança recuperada pode ser "uma motivação muito grande para a equipe".
Quando esses pacientes chegam ao hospital de Doro, a equipe inicia um tratamento que começa com um leite especial para malnutridos e remédios. "Testamos para ver se (o paciente) tem alguma doença. E quando ele começa a se restabelecer, a melhorar um pouco, a gente substitui por um outro alimento especial, que pode ser em forma de uma pasta ou de biscoito. Em seguida, a criança é liberada para voltar à casa provisória no campo de refugiados, mas continua recebendo essa alimentação", afirmou o médico.
Corrida por água potável
Cerca de duas mil pessoas cruzam a fronteira diariamente para buscar ajuda humanitária, de acordo com a MSF, e se somam às mais de 70 mil que já estão nos campos. Uma das prioridades das organizações que trabalham no Sudão do Sul é encontrar água potável para tantas famílias - segundo a MSF, equipes se dedicam a cavar poços e montar sistemas de bombeamento de água. O porta-voz da Cruz Vermelha no leste da África, Jean-Yves Clémenzo, disse que a busca por água limpa é uma corrida contra o tempo. "A estação chuvosa está chegando, há muitas pessoas nesses campos e é muito importante que elas consigam água limpa. Do contrário, elas contrairão doenças, como a cólera", afirmou Clémenzo.
O médico Paulo Reis lembra que "esse era um dos temores principais" no período em que ele trabalhou no Sudão do Sul, de março a junho. "Se houvesse cólera, a situação ia ser bastante complicada. A cólera é uma doença cujo tratamento demanda muita água, e sem água, a possibilidade de se espalhar é maior", afirmou Reis. De acordo com a MSF, o campo de refugiados de Jamam, um dos maiores do país, já está alagado devido às chuvas que atingem o país nessa época do ano.
A doença mais frequente entre os refugiados é a diarreia. "Provavelmente tanto por causa da água quanto da comida, mas a falta de água eu acho que é o que faz as pessoas mais vulneráveis, porque elas bebem qualquer água que esteja disponível e geralmente não é uma água própria", disse. Outra preocupação da organização é vacinar todos que chegam aos campos de refugiados. "A nossa principal preocupação é realmente o sarampo, cuja mortalidade é muito alta se não houver imunidade", afirmou Reis.
Falta de infraestrutura e disputa por petróleo
O Sudão do Sul tem uma área menor do que a do Estado de Mato Grosso - ao todo, o país tem 644.329 km². Com cerca de 8 milhões de habitantes, a nação africana tem uma densidade populacional relativamente pequena, de 12,7 habitantes por km². Para Clémenzo, o maior problema da população é a falta de infraestrutura, como estradas, hospitais e distribuição de água. "Quer dizer que, se você ficar doente no Sudão do Sul, não é como no Brasil. É muito difícil encontrar um hospital ou um local de atendimento de saúde", afirmou Clémenzo.
A disputa pelo petróleo agravou o conflito entre os dois países nos últimos meses - a maior parte das reservas está na parte sul. A cidade fronteiriça de Heglig está no centro dessa disputa, já que abriga metade dos 115 mil barris diários que os dois países produzem ao todo. "Os dois países não estão dividindo o óleo, que é responsável por 95% da receita do Sudão do Sul. Isso quer dizer que o Estado tem cada vez menos receita para oferecer serviços à população", disse o porta-voz da Cruz Vermelha no leste da África.
Diante de tantos problemas, Jean-Yves Clémenzo destaca que o CICV e outras organizações trabalham no Sudão do Sul para ajudar as pessoas com atendimento médico, alimentos e moradia, por exemplo. "Mas nossa ajuda não é suficiente. As pessoas precisam de estradas melhores para ir à escola, para conseguir tratamento se ficarem doentes, para transportar seus bens, para conseguir melhores oportunidades econômicas", disse ele. "Qualquer ajuda a esse povo ajudaria as pessoas a terem uma vida melhor", afirmou Clémenzo.