O sol do sábado na orla de Maceió estourava novidades em forma de raios fúlgidos, no tempo invernoso.
E aí na caminhada matinal eu as vi: eram duas meninas, com os cabelos amarfanhados pelo descuido das ruas, e embaladas pela idade da infância, pulavam corda.
A corda circulava os sonhos daquelas meninas que displicentes armazenavam segredos de sobrevivência.
Eram duas meninas negras: uma com vestido lilás e outra toda de azul: camisa e calças jeans, caminhando e pulando corda numa rua de paralelepípedos.
Ai se essa rua fosse minha...
As meninas destilavam a crença da ingenuidade sem temer os grandes lobos do mar.
Ainda vivem os lobos no mar?
As cordas puladas pelas meninas tinham o gosto e sabor da liberdade. Conversavam entre elas numa linguagem peculiar do afeto.
Eu mandava ladrilhar...
Duas meninas negras vasculhando os segredos das ruas povoadas pelos muitos turistas.
O menino tinha sotaque das bandas do Sul e ao avistar as meninas, apontou-as e disse ao adulto que a acompanhava: Olha, ali, pai, aquelas duas negrinhas!
O pai- adulto ao ouvir o comentário, abruptamente, pegou o filho pela mão e disse: Vamos, embora! Essa gente não é boa companhia para você. E unindo o gesto ao discurso arrastou o menino para longe das pretas meninas, que, felizes, pulavam corda nas ruas da orla de Maceió.
É o fim da história?