O ex-chefe de gabinete do governador do Distrito Federal, Agnelo Queiroz (PT), Cláudio Monteiro, chorou nesta quinta-feira (28) durante o depoimento na CPI do Cachoeira no momento em que o deputado Carlos Sampaio (PSDB-SP) elogiava sua postura.

—Hoje, eu diria que Vossa Senhoria sai daqui com a cabeça erguida, que a postura de Vossa Senhoria é a que se espera de alguém que tenha caráter.

Sampaio decidiu não fazer perguntas ao ex-chefe de gabinete e considerou acertada a decisão dele de não falar sobre seu filho João Cláudio Monteiro, de 33 anos. Segundo ele, o filho era dono de uma empresa que tinha veículos para transportar resíduos no DF, um contrato que o governo local mantém com a Delta Construções. A empreiteira é suspeita de envolvimento com o contraventor Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira.

Monteiro disse que seu filho, maior de idade, é quem tem que responder pelos atos dele. O deputado do PSDB disse que o ex-chefe de gabinete estava certo.

Mais cedo, o ex-chefe de gabinete admitiu ter tido três encontros com o araponga Idalberto Mathias, o Dadá. O primeiro foi a participação em uma feijoada durante a campanha de 2010 promovida por Dadá. Os outros dois encontros ocorreram, no ano passado, com o ex-diretor regional da Delta Construções Cláudio Abreu para tratar do contrato de limpeza urbana em Brasília. Dadá acompanhava Abreu.

Dadá é apontado pela Polícia Federal como "araponga" (agente infiltrado, espião) do empresário Carlos Augusto de Almeida Ramos, o Carlinhos Cachoeira, investigado por liderar uma suposta organização criminosa com envolvimento de políticos e empresários.

Monteiro disse que recebeu Cláudio Abreu como diretor da empresa e Dadá como funcionário da Delta, empresa investigada pela Polícia Federal sob suspeita de fazer parte do esquema de Cachoeira. Na reunião, segundo Monteiro, o assunto tratado foi a precariedade dos serviços de limpeza urbana da capital, que, na época era prestado pela Delta.

Gravações feitas pela Polícia Federal mostram uma ligação entre Abreu e Dadá, discutindo o pagamento de uma "mesada" em troca de benefícios em contratos no setor de limpeza pública do Distrito Federal. No diálogo, Dadá e Cláudio Abreu acertam o pagamento de R$ 20 mil, mais R$ 5 mil mensais, pela nomeação de João Monteiro na direção do Serviço de Limpeza Urbana (SLU) de Brasília.

Na gravação, os dois citam os nomes de Monteiro e de uma pessoa conhecida como Marcelão. As investigações identificaram Marcelão como o ex-assessor da Casa Militar Marcello de Oliveira Lopes.

Monteiro disse em seu depoimento ser amigo de Marcelão e negou conhecer João Monteiro e ter influenciado sua nomeação no SLU.

O ex-chefe de gabinete de Agnelo também negou ter tratado na reunião sobre a concessão nos serviços de bilhetagem eletrônica para o transporte público da capital, área que, segundo as investigações, era de interesse do grupo de Cachoeira.

Silêncio

As três testemunhas marcadas para prestar depoimento nesta quinta-feira(28) à Comissão Mista Parlamentar de Iquéirto (CPMI) do Cachoeira conseguiram no Supremo Tribunal Federal (STF) habeas corpus para garantir o direito de ficar em silêncio. Foram convocados o ex-chefe de gabinete do governador Cláudio Monteiro, o ex-assessor da Casa Militar Marcello de Oliveira Lopes e o ex-subsecretário de Esportes João Carlos Feitoza, conhecido como Zunga. Dos três, apenas Monteiro aceitou falar à CPI.

Ele negou ter ligações com o grupo de Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira. Mesmo tendo um habeas corpus que lhe garantia permanecer em silêncio na sessão, Monteiro disse que não poderia ter "de uma hora para outra a minha vida jogada na lata de lixo e a minha história riscada completamente".

—Cadê o rádio? Cadê a propina? Cadê a facilitação da licitação? Cadê o tráfico de influência?".

Cláudio Monteiro, que afirmou ter ido à CPI na "condição de quem não tem nada a perder", colocou à disposição os sigilos bancário, fiscal e telefônico pelo período que a comissão quiser.

O ex-chefe de gabinete disse que jamais recebeu um rádio Nextel para falar com integrantes do grupo de Cachoeira, suspeita levantada pela Polícia Federal na Operação Monte Carlo. Monteiro disse que, em 475 dias de escuta, não há nenhuma fala pessoal com integrantes do esquema comando pelo contraventor.

Monteiro também afirmou que não recebeu qualquer propina ou mensalidade por supostamente ter interferido em nomeações no Serviço de Limpeza Urbana (SLU). A estatal do lixo era área de influência da Delta Construções, que detinha o contrato do setor. Em um grampo da PF, o araponga Idalberto Matias, o Dadá, pede ao ex-diretor da Delta Construções Cláudio Abreu que pague ao ex-chefe de gabinete propina para indicar uma pessoa do grupo para o cargo de diretor do SLU.

Monteiro também ofereceu os sigilos dos três filhos. Disse que nunca nenhum deles foi laranja seu e que tudo que tem passado é uma questão de vingança pessoal.

– Tem gente querendo promover vingança pessoal. Quando não conseguem contra si, procuram afetar seus familiares. Me sinto aqui na condição de quem não tem mais o que perder.

O ex-chefe de gabinete negou que conheça Cachoeira e disse que nunca se encontrou com ele. As citações do nome dele seriam, na opinião dele, para mostrar "prestígio".

– O senhor Carlos Cachoeira nunca promoveu sequer um telefonema para o governo do DF. O senhor Cachoeira nunca ligou para o gabinete do senhor governador Agnelo Queiroz. Não existe uma única fala que eu esteja me dirigindo a essas pessoas.

Outro integrante da quadrilha, Idalberto Matias, o Dadá, Monteiro diz que só conhece de campanha e nunca o viu depois da eleição de Agnelo. O ex-chefe de gabinete negou que tivesse ligação com o senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) e qualquer outro integrante da quadrilha que explorava jogos ilegais.

Monteiro aproveitou ainda para dizer que os homens de Cachoeira não nomearam pessoas no governo e confirmou que recebeu, em seu gabinete, Dadá eeee o ex-diretor da Delta, Claudio Abreu, para tratar assuntos da construtora.

– Como representante da Delta recebi Dadá e Claudio. Dadá fez doação para minha campanha, mas Delta não. Infelizmente não. Se tivessem doado seria ótimo. Na campanha só não vale perder. Se tivesse recebido teria pegado os cheques, depositado na conta e prestado contas ao TSE.