O contraventor Carlinhos Cachoeira assinou na noite de quinta-feira um termo circunstanciado após ser acusado por um servidor do Departamento Penitenciário Nacional (Depen) de desacato. Segundo relato do servidor, o desentendimento ocorreu ontem após o almoço, na penitenciária da Papuda, onde o bicheiro está preso desde o final de fevereiro, acusado de comandar um esquema de exploração de jogos ilegais em Goiás. Os motivos não foram informados pela Polícia Federal.

De acordo com a PF, Cachoeira foi levado da Papuda para a Superintendência da Polícia Federal para prestar esclarecimentos sobre o suposto desacato. Após a assinatura do termo circunstanciado, ele voltou à prisão.

Desacatar funcionário público no exercício da função é crime previsto no Código Penal e tem detenção de seis meses a dois anos, ou multa. Para o caso resultar em um processo, o servidor precisa acionar a Justiça.

Na tarde de ontem, o Tribunal de Justiça do Distrito Federal negou suspender o mandado de prisão contra Cachoeira pela Operação Saint Michel, da Polícia Civil, um desdobramento da Monte Carlo, realizada pela Polícia Federal, que prendeu Cachoeira. Também ontem, o ministro Gilson Dipp, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), cassou a liminar do desembargador Tourinho Neto, do Tribunal Regional Federal da 1ª região, que concedeum na semana passada, liberdade ao bicheiro no processo pela Monte Carlo.

O Terra fez contato com o escritório da advogada de Cachoeira e aguarda retorno.

Carlinhos Cachoeira
Acusado de comandar a exploração do jogo ilegal em Goiás, Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, foi preso na Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, em 29 de fevereiro de 2012, oito anos após a divulgação de um vídeo em que Waldomiro Diniz, assessor do então ministro da Casa Civil, José Dirceu, lhe pedia propina. O escândalo culminou na Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) dos Bingos e na revelação do suposto esquema de pagamento de parlamentares que ficou conhecido como mensalão.

Escutas telefônicas realizadas durante a investigação da PF apontaram contatos entre Cachoeira e o senador democrata Demóstenes Torres (GO). Ele reagiu dizendo que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido a critérios legais.

Nos dias seguintes, reportagens dos jornais Folha de S.Paulo e O Globo afirmaram, respectivamente, que o grupo de Cachoeira forneceu telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, e que o senador pediu ao empresário que lhe emprestasse R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo. Na conversa, o democrata ainda vazou informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes.

Pressionado, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado em 27 de março. No dia seguinte, o Psol representou contra o parlamentar no Conselho de Ética e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandowski autorizou a quebra de seu sigilo bancário.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido havia decidido abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda, encerrando a investigação interna. Mas as denúncias só aumentaram e começaram a atingir outros políticos, agentes públicos e empresas.

Após a publicação de suspeitas de que a construtora Delta, maior recebedora de recursos do governo federal nos últimos três anos, faça parte do esquema de Cachoeira, a empresa anunciou a demissão de um funcionário e uma auditoria. O vazamento das conversas apontam encontros de Cachoeira também com os governadores Agnelo Queiroz (PT), do Distrito Federal, e Marconi Perillo (PSDB), de Goiás. Em 19 de abril, o Congresso criou a CPI mista do Cachoeira.