O senador Demóstenes Torres (sem partido-GO) compareceu em sessão do Senado nesta quarta-feira, logo após o anúncio de que a Comissão Parlamentar Mista de Inquérito (CPMI) para investigar as relações de autoridades com o bicheiro Carlinhos Cachoeira será criada amanhã de manhã. O parlamentar, no entanto, não quis se pronunciar e disse que vai falar somente após a reunião do Conselho de Ética, marcada para esta quinta.

Amanhã, às 10h30, a primeira vice-presidente do Congresso Nacional, deputada Rose de Freitas (PMDB-ES) vai ler o requerimento que cria a CPMI com o objetivo de apurar práticas criminosas descobertas nas operações Vegas e Monte Carlo, da Polícia Federal, com envolvimento do bicheiro Carlinhos Cachoeira, agentes públicos e empresas e possíveis desdobramentos.

No entanto, a comissão só é considerada oficialmente criada após a meia-noite do dia da leitura do requerimento, que é quando acaba o prazo para os parlamentares retirarem suas assinaturas do documento que pede a criação da CPMI. Até agora, a comissão conta com o apoio de 330 deputados e 67 senadores.

Depois desse prazo, os líderes partidários terão cinco dias úteis para indicar os membros para compor a comissão. Após essa etapa, marca-se a primeira reunião, em que são eleitos o presidente e o relator. Pelo requerimento de criação da CPMI, a comissão tem 180 dias para concluir os trabalhos e um custo estimado de R$ 200 mil para a condução da investigação parlamentar.

Demóstenes e Carlinhos Cachoeira
Em 6 de março de 2012, o senador Demóstenes Torres (GO) subiu à tribuna para dar explicações sobre as denúncias de sua proximidade com o bicheiro Carlos Augusto Ramos, o Carlinhos Cachoeira, descoberta pela operação Monte Carlo, da Polícia Federal, que terminou em fevereiro, com a prisão de Cachoeira e de outras 34 pessoas. Demóstenes disse que a violação do seu sigilo telefônico não havia obedecido critérios legais. Dez dias depois, o jornal Folha de S.Paulo publicava um relatório do Ministério Público Federal (MPF) que indicava que o grupo comandado por Cachoeira entregou telefones antigrampos para políticos, entre eles Demóstenes, que admitiu ter recebido o aparelho.

O jornal O Globo noticiou, em 23 de março, gravações da PF que flagraram Demóstenes pedindo para Cachoeira lhe pagar R$ 3 mil em despesas com táxi-aéreo e vazando informações sobre reuniões reservadas que manteve com representantes dos três Poderes. Em 27 de março, Demóstenes pediu afastamento da liderança do DEM no Senado para "acompanhar a evolução dos fatos". No dia seguinte, o Psol entrou com representação contra o parlamentar no Conselho de Ética do Senado e, um dia depois, em 29 de março, o ministro do Supremo Tribunal Federal (STF) Ricardo Lewandovski autorizou a quebra do sigilo bancário de Demóstenes, solicitando ainda um levantamento sobre as emendas e os projetos relatados por ele para saber se Cachoeira, acusado de controlar a máfia dos caça-níqueis e de corromper policiais e políticos em Goiás, foi beneficiado.

Nas gravações, Demóstenes também aparece acertando um suposto lobby pela legalização dos jogos de azar no Congresso em 2009. Em outra conversa, Cachoeira pede ajuda no processo de um delegado e três policiais de Anápolis (GO) acusados de tortura e extorsão. Os dois ainda conversaram sobre um "negócio" milionário na Infraero. Na ocasião, Demóstenes teria se valido da relatoria da CPI do Apagão Aéreo para levantar informações e sondar contratos de informática na estatal.

O presidente do DEM, senador José Agripino Maia (RN), anunciou em 2 de abril que o partido decidiu abrir um processo que poderia resultar na expulsão de Demóstenes, que, no dia seguinte, pediu a desfiliação da legenda.