Lembro de uma cena de novela, acho que “Dona Beija”, quando a protagonista recebe das mãos de um empregado uma caixa cheia de dejetos humanos que havia sido deixada anonimamente na porta de sua casa, provavelmente por uma carola desafeta. A impávida senhora, de reputação duvidosa, acalmou o portador da fétida encomenda dizendo que eles não tinham porque se incomodarem, afinal, cada um dava o que tinha.
E é verdade. Diariamente deparamo-nos com injustiças, opressões, maldades, barbáries e toda sorte de mazelas – sociais, particulares ou públicas –, mas nem por isso as pessoas vestem-se como super-heróis e começam a fazer a Justiça que julgam adequada.
Já faz bastante tempo que a Lei de Talião (1780 a.C) não se aplica, hoje não é cabível o “olho por olho, dente por dente”. O amadurecimento social, os tempos modernos, as experiências bárbaras do passado, tudo isso contribuiu para que as leis e a justiça dos homens fossem mais equilibrada, sensata e ponderada.
É claro que nem sempre ela reflete a indignação e a comoção social, por vezes a prolixidade legislativa leva, incoerentemente, às suas incontáveis brechas, o que oportuniza a algozes a fuga da punição.
Essa situação causa ainda mais indignação e descrédito nas instituições públicas, e é compreensível que muitos levantem a voz e ergam o dedo em riste disparando impropérios contra quem “deixou” que a impunidade se desse.
Pior ainda quando o impune reincide, quando demonstra soberba e não reconhece seus próprios erros. Há ainda aqueles que reconhecem o erro, mas nada fazem para repará-los ou para modificar suas próprias atitudes. E o que fazer diante de tanta afronta?
Com certeza não se deve perder o poder de indignação. Afinal, aqueles que assistem aos erros alheios também devem aprender com eles. Exemplos existem para ensinar. Mas jamais poderemos querer fazer a Justiça, devemos cobrar sua aplicação de quem tem o poder para tanto.
A gente deve dar o que tem. E se vierem com espinhos, devolveremos flores. Se vierem com mentiras, levaremos a verdade. E se nos maldisserem... nossos atos mostrarão quem somos.