Goretti Brandão

Semana passada, tive a oportunidade de assistir a uma entrevista concedida por Werner Salles à TV Pajuçara, sobre o lançamento do seu filme: Interiores ou 400 Anos de Solidão. A gente percebe que nessas entrevistas, a conversa gira em torno do tema do filme e não do cinema em si. Ao final falou-se sobre o surgimento de novos cineastas, mas, em nenhum momento, sobre a crítica cinematográfica, atuando em diversos sites existentes em Alagoas. Na tentativa de entender o que acontece, a partir da ótica de quem faz crítica cinematográfica, conversei a respeito, com Fernando Mendonça, um dos redatores do site Filmologia. Formado em Biblioteconomia, pela UFPE • Mestrado/Doutorado - Teoria Literária, ele é integrante do Cineclube Dissenso e professor da disciplina Cinema e Literatura no curso de Cinema da UFPE.
 

Paulista, Mendonça mora no Recife há 10 anos. O amor aos filmes, de falar sobre eles, através do fórum MAKING OFF, um dos mais importantes espaços virtuais da cinefilia em língua portuguesa, segundo ele, propiciou o relacionamento afetivo com os editores do alagoano Filmologia. Ele estreou logo na sua primeira edição. Sua participação: um texto para o Dossiê Aki Kaurismäki. O seu comprometimento com o site, bem como pertencer ao grupo, como crítico, confirmou-se logo que o projeto se concretizou.

A proposta original do site

Embora não tenha participado na elaboração da sua proposta original, Fernando Mendonça sabia que ela dizia respeito a um estado crítico, ou mesmo a ausência dele, identificado pelos editores, particularmente, em Maceió. “O Editorial da primeira edição é claro. O site levantava certo grau de resistência contra o olhar crítico fragilizado que a região enfrenta. De certo modo, este foco se diluiu com o passar do tempo, a exemplo do fim para a seção de Cinema na Cidade, que pretendia se concentrar nos acontecimentos cinematográficos alagoanos”, pontua Mendonça.

Mas, segundo ele, a preocupação regional do site continua, já que seus membros continuam todos, num certo contexto nordestino. A fundo tal preocupação não desintegrou, mas se abriu a problemas que são muito próprios da percepção contemporânea de crítica de cinema à divulgação cultural, que não deixam claras as margens entre uma e outra abordagem e terminam por confundir ainda mais as mídias e a valoração do audiovisual.
O interesse crítico de reflexão anterior ao de oposição das fronteiras, das geografias, foi para Mendonça, um reforço positivo que as modificações do site trouxeram. Além do que, criaram uma heterogeneidade que atualmente é presente no Filmologia. Elas surgiram das articulações internas entre membros, de um para outro, de crítico para filme, de filme para espectador, muito mais do que das carências externas identificadas no início e combatidas.

Contextos da crítica cinematográfica

Inserido num oceano de semelhanças (a rede mundial), os espaços críticos proliferados, que nascem e morrem, dificultam o estabelecimento de propostas mais sérias ou duradouras. “Nunca tivemos como objetivo a popularidade e o recorde de acessos (que são verificados pelo editor Ranieri Brandão, que compartilha conosco alguns bons resultados), geralmente mais identificados em sites que se movimentam no ritmo dos lançamentos de cinema, conforme o sistema de mercado pede”, afirma Mendonça. Sem ter a preocupação de o site ter popularidade ou de cobrir filmes na sintonia da suas estréias, e sim, à medida que tais títulos os tocarem e pedirem ‘o espaço da letra’, esta poderá ser entendida como uma proposta de contramão romântica, mas, o redator se pergunta se existe algo mais romântico, no mundo contemporâneo, do que dedicar um tempo à escrita.

Conexão Alagoas - Pernambuco

Comparações entre as diferenças da aceitação do site, entre um estado e outro, são acompanhadas por Fernando através de sites e jornais alagoanos. Ele diz que não pode afirmar que Recife seja um paraíso cultural, mas que há um pequeno abismo entre Alagoas e Pernambuco encoberto por nossas fronteiras. E aponta, por exemplo, o interesse crescente pelo cinematógrafo em Pernambuco, perceptível em diversas áreas de difusão: exibições, pesquisa universitária, produção audiovisual. Mesmo assim, apesar do que pode ser um contraste com a realidade de Maceió, a reflexão crítica em ambos os estados, não é muito chocante.

“As diferenças que localizamos no interesse de nossa voz em relação aos críticos da publicidade e da imprensa oficial são bastante próximas nos dois estados, e pelo que identificamos de nossas leituras, a nível nacional. É curioso que a crítica eletrônica, esta que se difunde nos ambientes virtuais e naturalmente fratura uma compreensão geográfica, tem sido das mais ricas alternativas em todo painel crítico brasileiro”, assevera, Mendonça.

...Até Werner Salles. Interiores ou 400 anos de solidão. A entrevista aborda o tema fílmico não o cinema em si

Mendonça diz que esta é uma tendência muito comum atualmente: “Particularmente, acho que a discussão temática de uma obra (e não restrinjo ao objeto fílmico porque realmente me preocupo com isso em outras instâncias de representação) é um elemento que não pode ser deixado de lado, pois permite um horizonte de percepções que necessariamente atravessa a obra e justifica sua existência. O que me preocupa é ver que muitas vezes tais intenções não são ultrapassadas, tornando-se o ponto de partida e chegada do trabalho artístico, esgotando desde o início todas as possibilidades próprias de um sentido estético”.

Sem ter assistido a entrevista com o Werner, Fernando Mendonça não pode julgar os caminhos por ela seguidos. Mesmo assim, ele diz que chama à sua atenção que minha pergunta (em nossa conversa) envolva uma outra entrevista que certamente também se construiu por outras perguntas. “Isso me recorda uma reflexão seminal que T. J. Clark, um crítico e historiador da arte que muito admiro, fez nos idos dos anos 70, quando apontou como grande problema da interpretação artística o “não saber perguntar” a uma obra ou autor.

Provavelmente este excesso de culturalização que vemos ser abarcado por filmes e mídias decorre do que perguntamos a respeito destes materiais (o tempo plural cobre os artistas, o público, os críticos e derivados). Se continuarmos fazendo as perguntas erradas ao que assistimos e recebemos, nunca chegaremos de fato ao que tais experiências nos quiseram dizer”.

Novos cineastas e crítica cinematográfica

O desvencilhamento na prática de produção cinematográfica de sua cobertura crítica pode ser observado mundialmente. Esta é uma observação feita por Mendonça. Segundo ele, críticos não iluminam mais os cineastas como um dia o fizeram, mas apenas recebem e projetam sua sombra. E prossegue dizendo que enquanto não for retomada a consciência de que um exercício crítico perpetue a experiência de cinema (pois se a crítica literária também é escritura, a cinematográfica bem poderia ser comparável ao ato fílmico, elemento de pós-produção), dificilmente este cenário será alterado. Nesse sentido, ele diz não ser muito otimista: “Escrever sobre filmes não traz os holofotes que recaem sobre quem os realiza, isso não vai mudar. Mas de alguma forma os espectadores chegam aos textos, pois sempre há algo que fica do filme neles, entre as palavras que dedicam ao que se viveu numa sala escura”, pontua Fernando Mendonça.