Na minha carreira profissional, uma das coisas que muito me orgulha foi suceder, muitos anos depois, o mestre Graciliano Ramos na Imprensa Oficial de Alagoas. Durante todo o ano de 2008, fui diretor editorial da Imprensa Oficial do Estado de Alagoas, função desempenhada pelo Mestre Graça em seu tempo.
Foi com muita emoção que editei, junto com o historiador, antropólogo e amigo in pectori, Sávio de Almeida, uma edição especial do Diário Oficial do Estado, para marcar (em 2008) os 78 anos da posse – em 31 de maio de 1930 – de Graciliano Ramos à frente da Imprensa Oficial.
Além de minha reportagem “O Jornalismo na Vida e na Obra de Graciliano”, Sávio convidou doutores-professores da Universidade Federal de Alagoas (Ufal) para compor a série de artigos que fizeram parte do encarte. Com um arrojado projeto gráfico do design Fernando Rizzotto, o libreto foi um sucesso, e se transformou no primeiro número da revista Graciliano, que segue hoje com novos temas, editada pela Imprensa Oficial.
Bom mesmo foi voltar à Palmeira dos Índios, e seguir as trilhas do mestre Graça por terras do Agreste e do Sertão. A reportagem deu vida ao ensaio. Encontrei locais e personagens incríveis, como o engraxate José da Anadia, 98 anos, que polia os sapatos do mestre Graça e que comprava seus cigarros enquanto ele escrevia. Leia a seguir parte da reportagem publicada.
O consagrado romancista alagoano Graciliano Ramos (1892-1953) dedicou-se à literatura, mas também era um grande jornalista. Foi no batente dos jornais onde trabalhou - no Rio de Janeiro e em Alagoas - com sua linguagem enxuta e sintética que Graciliano obteve mais fermento para sua obra.
O então governador Álvaro Paes, impressionado com os dois relatórios de prestação de contas de sua administração (1929 e 1930), como prefeito de Palmeira dos Índios, convida Graciliano Ramos para dirigir a Imprensa Oficial do Estado. Os relatórios, escritos de forma impecável e em linguagem literária, depois ficaram famosos e integram o corpo do livro Viventes das Alagoas.
O intelectual fica empolgado com o convite e renuncia ao cargo de prefeito e muda-se com a família para Maceió. O orçamento do órgão é raquítico, mas mesmo diante das dificuldades faz uma boa administração. Adota uma gestão rigorosa quanto à presença dos servidores; é perfeccionista na revisão do Diário Oficial.
A Imprensa Oficial onde Graciliano Ramos atuou tinha sede na rua Boa Vista, centro de Maceió, em um belo casarão de dois andares construído pelo governador Clodoaldo da Fonseca, em 1912.
No centro, entre os prédios importantes da época já estavam a Assembleia Legislativa, as igrejas, e os sobrados que compunham a primeira fisionomia urbana de Maceió.
O prelo de chumbo e todo material tipográfico só foram aposentados em 1974, quando foi introduzido o sistema offset na Imprensa Oficial, já em sua nova sede, na avenida Durval de Góes Monteiro, na gestão do governador Afrânio Lajes.
“Foi nesse meio que a Imprensa Oficial surgiu como força inestimável para a formação de mão de obra para o desenvolvimento das artes gráficas e do jornalismo, e a fixação da memória do governo, atos e legislações ao longo dos séculos, hoje dispersos em coleções esparsas e cuja recuperação é muito duvidosa”, afirma o jornalista e estudioso da Imprensa alagoana, Petrúcio Vilela.
“Durante as décadas de 1930 a 1950, a Imprensa Oficial era o maior celeiro de grandes intelectuais da terrinha, principalmente um grupo de escritores que iria formar o romance social nordestino. Eles estavam aqui, em Maceió construindo o até hoje mais denso e permanente núcleo da literatura brasileira. E os alagoanos pouco sabem disso”, completa Vilela.
No tempo em que Graciliano Ramos dirigia a Imprensa Oficial, Aurélio Buarque de Holanda era o revisor de textos, e moravam na capital o romancista paraibano José Lins do Rego, a cearense Raquel de Queiroz.
Jorge de Lima atendia em sua clínica médica e já acendia seus lampiões em versos sobre paisagens alagoanas. E a turma avançava com Théo Brandão, Manuel Diegues Júnior, Raul Lima, Carlos Paurílio, Alberto Passos Guimarães, Valdemar Cavalcanti, Aluísio Branco, Cipriano Jucá, alguns deles com passagens pela Imprensa Oficial.
A gestão de Graciliano na Imprensa Oficial do Estado é rápida. Ele assume em 31 de maio de 1930, e fica até 26 de dezembro de 1931. Desgostoso com a vida de burocrata da imprensa, ele volta para Palmeira dos Índios, onde escreve os primeiros capítulos de São Bernardo, entre cafés, cachaças e cigarros, na sacristia da Igreja Matriz.
Mas é convidado pelo interventor do Estado de Alagoas, capitão Afonso de Carvalho (nomeado pelo presidente Getúlio Vargas), a assumir a direção da Instrução Pública, hoje seria um secretário estadual de Educação.
Desempregado, Graciliano aceita o convite e deixa definitivamente Palmeira dos Índios para morar em Maceió. Como responsável pela educação no Estado faz visitas surpresas às escolas e sabatina professores, cria a merenda escolar na rede pública.
Em 1936, três anos após sua posse na Educação do Estado, é demitido e preso, acusado de subversão, em sua casa na rua da Caridade, no bairro da Pajuçara, onde escrevia Angústia.
Suas crônicas reunidas nos livros póstumos Linhas Tortas (1962) e Viventes das Alagoas (1962) apontam para uma relação clara entre literatura e jornalismo.