Nesta semana foi divulgado o Produto Interno Bruto (PIB) do terceiro trimestre de 2011, pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), que se manteve estável quando comparado aos três meses anteriores. Um dos destaques do levantamento foi em relação ao recuo do indicador consumo das famílias, de 0,1%, o primeiro desde o quarto trimestre de 2008, em meio à crise econômica mundial, e a segunda queda desde o primeiro trimestre de 2005.
O indicador reflete tudo o que é consumido por todas as pessoas físicas do País, em relação a bens nacionais e importados. Para a composição do PIB, o consumo de produtos importados não é levado em conta, embora esteja presente no índice. Segundo o IBGE, foi o consumo interno que manteve a economia brasileira crescendo após a crise, conseguindo minimizar seus efeitos, inclusive com taxas acima do PIB, por conta da diminuição do investimento. Em 2009, por exemplo, enquanto o PIB do segundo e terceiro trimestres cresceram 2% e 2,5%, respectivamente, o consumo das famílias obteve elevação de 2,9% e 2,6% nos mesmo períodos.
De acordo com a gerente de contas nacionais trimestrais do IBGE, Rebeca Palis, a primeira queda mensal do consumo das famílias desde a crise é reflexo das medidas tomadas pelo governo entre o final do ano passado e o começo de 2011 para conter o consumo e, por consequência, a inflação. Na ocasião, o governo aumentou o Imposto sobre Operações Financeiras (IOF) para compras no crédito e anunciou um corte no Orçamento de R$ 50 bilhões. Além disso, a alta da taxa básica de juros (Selic), que iniciou 2011 em 10,75% e em julho atingiu 12,5% ao ano, também colaborou para desaceleração do consumo interno.
"Todas essas medidas vão tendo efeito gradativo sobre a economia, e conseguimos ver mais esse efeito nesse terceiro trimestre. Quando (o governo) restringiu o crédito para compra de automóveis, deu uma arrefecida nas vendas, e as indústrias continuaram produzindo. O estoque aumentou e estoque é custo. Várias montadoras deram férias coletivas. Esse é um exemplo do efeito que se concentrou mais no terceiro trimestre", disse Rebecca.
Por conta da importância do consumo interno para a economia da nação, sobretudo em tempos de instabilidade econômica externa, o governo resolveu no início de dezembro, novamente, assim como fez durante a crise em 2008, tomar medidas de incentivo ao crédito e consumo, diminuindo tributos, como o Imposto sobre Produtos Industrializados (IPI) para os eletrodomésticos da linha branca (a taxa para o fogão, por exemplo, caiu de 4% para zero). Além disso, o IOF sobre o crédito caiu de 3% para 2,5%. As medidas somaram-se aos cortes seguidos na Selic, que chegou a 11% na última reunião do Comitê de Política Monetária (Copom), do Banco Central (BC).
No entanto, não houve tempo para que a economia interna fosse influenciada, segundo o assessor econômico da consultoria Serasa Experian Carlos Henrique de Almeida. "Essas medidas terão mais impacto em 2012 que no Natal, e o ciclo de redução de juros se conseguirá ver (o resultado) no primeiro trimestre de 2012. Quando o governo reduz juros, você não tem efeito imediato, demora dois, três meses para chegar na economia, para consumidores e empresas", afirmou.
Ainda assim, os efeitos das medidas são discutíveis para Almeida, que não acredita que os reflexos sejam tão evidentes como após a crise em 2008. "O mercado interno é fundamental, é uma forma de o governo blindar a economia. Mas a questão é até quando ele conseguirá conter os efeitos internos. Os impactos serão diferentes. O rendimento médio do trabalhador tem crescido menos, ele está mais endividado que antes, e tem a inflação", lembrou.
Já Rebecca também destaca o crescimento menor do poder de compra das famílias, como outro fator de influência no consumo. Chamado de massa salarial real, calculado a partir da relação entre os empregos formais no País e a remuneração, o indicador, segundo o IBGE, cresceu 2,6% no terceiro trimestre de 2011, ante 6,5% nos três meses anteriores.
Dada a hipótese de menor impacto na economia com as ações governamentais e corte nos juros, Almeida não desconsidera novas medidas no início do ano que vem. "Não estão descartadas novas medidas, até o ponto de não gerar mais crescimento da inflação. Ele (o governo) não pode acelerar o consumo porque vai acelerar a inflação e isso acaba contaminando a expectativa para 2012. O governo tem que fazer uma sintonia fina muito precisa nessa questão", argumentou.