É muito raro que fazendeiros de um lado e indígenas de outro concordem em qualquer coisa, mas no Mato Grosso do Sul os dois lados têm um ponto em comum: dizem que os conflitos fundiários no Estado só serão resolvidos quando o Governo Federal concluir o processo de demarcação das terras tribais da região.
Um relatório do Cimi (Comissão Missionária Indigenista) informa que entre 2003 e 2010 houve 250 indígenas assassinados apenas no Mato Grosso do Sul: mais da metade do total geral de 452 mortes registradas em todo o Brasil.
As dificuldades e a falta de perspectivas também fazem dos indígenas do Mato Grosso do Sul os que mais se suicidam --em geral por enforcamento-- no Brasil: 176 casos no Estado entre 2003 e 2010 e outros 30 no restante do Brasil.
No Estado há cerca de 46 mil guaranis --dos ramos caiová (o mais numeroso), m'bya e ñandeva-- e embora eles sejam a maior população indígena do Brasil, têm a menor área demarcada. Os 15 mil ianomâmi no extremo norte do Brasil têm mais de 9 milhões de hectares de reservas, enquanto os guarani --três vezes mais numerosos-- mal chegaram a 20 mil hectares
PROCESSO LENTO
Dirigentes da Funai (Fundação Nacional do Índio) dizem que demarcar as áreas dos guaranis é a prioridade agora, mas que o processo é mais lento e complicado do que na Amazônia, porque eles habitam o Centro-Oeste e Sudeste do Brasil, onde a terra é bem mais valiosa e ocupada do que no Norte do pais.
"Os fazendeiros não têm nada contra os indígenas, mas temos que proteger as terras em que estamos produzindo. Os índios estão invadindo fazendas legais, com títulos registrados em cartório há muitas décadas", reclama o presidente do Sindicato dos Produtores Rurais de Amabaí, Christiano Bortolotto.