Episódios recentes de violência em favelas ocupadas pelas forças de pacificação, no Rio de Janeiro, provocam uma discussão sobre o modelo de policiamento permanente. Especialistas em segurança elogiam as ocupações, consideradas bem sucedidas, mas dizem que é preciso fazer ajustes.
Um vídeo exibido na internet mostra parte do conflito entre militares e moradores do Complexo do Alemão. Os soldados usaram spray de pimenta e armas não letais.
Segundo o Exército, foi uma resposta aos ataques com pedras e garrafas atiradas contra uma patrulha da força de pacificação por pessoas que estavam em um bar. Já os moradores disseram que reagiram por causa da abordagem truculenta dos militares. Várias pessoas mostraram os ferimentos causados pelas balas de borrachas.
“A única coisa que eu acho é que eles não estão treinados para lidar com as pessoas aqui fora, eles estão preparados para ir para guerra”, disse o morador Márcio da Silva.
“Se observarmos com muito cuidado, nós vamos ver que a tropa foi alvo de arremesso de paus, pedradas, peças de veículos e de garrafas, então houve uma reação. Nós vamos avaliar se essa reação foi proporcional”, comentou o general César Leme Justo, da Força de Pacificação do Exército.
Um grupo de moradores fez nesta segunda-feira (5) uma manifestação de protesto. O Exército é o responsável pela segurança no Complexo do Alemão há dez meses e deve permanecer até a chegada dos PMs que vão formar a Unidade de Policia Pacificadora.
As UPPs garantem policiamento permanente em regiões antes dominadas pelo tráfico. No Rio, já são 17 unidades e cerca de 280 mil pessoas beneficiadas.
Na madrugada desta segunda, a sede da UPP na Cidade de Deus, na Zona Oeste, foi atacada com pedras e garrafas por moradores que saíam de um baile funk. Os PMs deram tiros para o alto e lançaram gás de pimenta.
Segundo estudiosos da violência, esse tipo de conflito só ocorre porque falta entendimento entre a população e as forças de segurança. Como a chegada da UPP muda muito a vida nas comunidades, é preciso criar meios mais eficientes para conhecer melhor as necessidades dos moradores.
“Hoje em dia, o que tem é uma iniciativa do comandante local, mas não um fórum permanente e regular entre a policia e a comunidade, que é o modelo normal da policia comunitária”, apontou Ignácio Cano, professor da UERJ.
“O uso excessivo da força acaba com a confiança na polícia. Nós sabemos também que tem traficantes voltando, e parte da população resiste”, comentou a antropóloga Alba Zaluar.
Outro desafio das UPPs é o aumento da violência em algumas comunidades. Nos últimos quatro meses, sete pessoas foram assassinadas em favelas pacificadas na Zona Norte. O comandante das UPPs, coronel Robson Rodrigues, diz que este modelo de policiamento está sempre passando por ajustes.
“O jogo não está ganho ainda. Mas a sociedade pode ter certeza que estamos fazendo o melhor possível”, contou.
O Exército deveria ficar seis meses no Complexo do Alemão. Mas o prazo foi prorrogado até o meio do ano que vem, porque a Secretaria de Segurança ainda não formou os PMs necessários para a força de pacificação no local.