Camila Vallejo, estudante do curso de geografia na Universidade do Chile e musa dos protestos chilenos, está no Brasil para participar da Marcha dos Estudantes, organizada pela UNE (União Nacional dos Estudantes), em Brasília, nesta quarta-feira (31).
Para a líder do movimento, o maior problema em relação à educação chilena é que esta é vista como um bem de consumo e não como um direito universal.
- O problema é que no Chile se impôs na década de 80 um modelo de educação de mercado que já tem 30 anos de vida, mas que tem sido um sistema perverso, cujo principal objetivo é aprofundar as desigualdades. O Estado hoje não assume a educação, não a financia. Quem financia a educação chilena são as famílias.
As famílias são responsáveis por cerca de 80% e 100% dos custos com educação, em especial a superior. O único benefício oferecido pelo Estado é um sistema de financiamento que aprofundou o endividamento exagerado das famílias.
- O que estamos reivindicando é a volta de um modelo central que sustente o modelo educacional de muitos países que entendem a educação como um direito e, portanto, tem que ser devidamente financiada pelo Estado. Um modelo que pense um desenvolvimento harmônico do país e isso passa não somente pela garantia do financiamento de um sistema público, mas também pela construção de um sistema que sirva à democracia, com valores pluralistas em que haja a verdadeira integração social.
Apesar do constante destaque do Chile entre os países da América Latina pelos bons resultados alcançados na educação, Camila afirma que a situação real é bem diferente.
- O relatório da OCDE (Organização para a Cooperação e o Desenvolvimento Econômico) aponta que somos o país em que há mais desigualdades nas oportunidades de ingresso e chama a atenção para um modelo educacional que está particularmente focado na lógica de mercado. Essa é uma realidade que se expressa no Chile. Efetivamente, não somos um modelo exemplar. Temos um modelo de 30 anos que fracassou ao perpetuar a desigualdade, a má qualidade do ensino, a falta de oportunidades e a frustração. Dizemos basta e queremos mostrar não apenas à sociedade chilena em seu conjunto que o modelo é perverso, mas também ao mundo inteiro e particularmente à América Latina, para que não se guiem pela falsa expectativa que se tem em relação a ele.
A estudante acredita que, no sistema de educação superior, a Universidade do Chile não está entre as melhores e não é uma referência mundial entre as instituições públicas. Para Camila, a educação básica e média (equivalente à educação infantil, ao ensino fundamental e médio no Brasil) é uma vergonha.
- Antes do golpe militar, o nosso sistema tinha qualidade reconhecida e era público, era gratuito. Mas, depois da ditadura, a educação básica e média se municipalizou, isso produziu uma alta segmentação socioeducativa, má qualidade, problemas de financiamento. E na educação superior também, ampliou-se a matrícula no setor privado sem nenhum tipo de regulação e o sistema público ficou subfinanciado. Isso foi deteriorando significativamente a qualidade e a visão institucional da educação como bem público. O Chile na verdade não é um exemplo de modelo educacional. O Estado não foi responsável e o setor privado tampouco conseguiu garantir uma educação de qualidade.
A líder do movimento estudantil retorna para o Chile ainda hoje, mas antes se reúne com parlamentares no Congresso Nacional e com a presidente Dilma Rousseff.
Relembre os protestos no Chile
O impasse dos estudantes chilenos com o governo daquele país já dura três meses e conseguiu mobilizar outros setores da sociedade. As últimas paralisações foram consideradas as mais intensas desde a redemocratização do país com o fim do governo do então presidente Augusto Pinochet, de 1973 a 1990.
Em um dos últimos protestos, um estudante de 14 anos morreu após ser atingido por uma bala. A suspeita é a de que o tiro tenha partido de policiais. A principal reivindicação dos estudantes é a mudança no modelo de ensino, que é em grande parte administrado pelo setor privado.
Na educação básica, o governo chileno é responsável por uma parte menor dos estabelecimentos de ensino e financia a matrícula do restante da população em escolas privadas. Dos 3,4 milhões de matrículas, metade está nas escolas subvencionadas – o restante fica nas públicas ou é custeado pelas próprias famílias em instituições particulares.
Mesmo em universidades públicas, os estudantes têm que pagar taxas anuais e matrículas. O governo banca apenas parte dos estudantes. Ainda assim, nas avaliações internacionais como o Pisa (Programa Internacional de Avaliação de Alunos), o Chile sempre ocupa posições de destaque entre os países da América Latina pelos bons resultados alcançados.