O economista e ex-presidente do BNDES Antonio Barros de Castro, que morreu no domingo aos 73 anos, buscava uma visão estratégica para o país e sua obra desafiava o senso comum mesmo entre os parceiros da linha desenvolvimentista, disseram colegas e parentes que o homenagearam hoje no velório no Rio.
"Ele foi um pensador extremamente original. Era um pouco como Agatha Christie: o culpado nunca era o mordomo", comparou o economista Fernando Cardim de Carvalho, professor aposentado da UFRJ (Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde trabalhou com Barros de Castro por mais de 30 anos.
Num breve resumo da trajetória intelectual de Castro, Cardim lembrou que o primeiro livro dele, "Sete Ensaios sobre a Economia Brasileira", dos anos 1960, desafiava a tese predominante na esquerda sobre o caráter "feudal" da agricultura brasileira.
"As pessoas imaginavam que a agricultura fosse de um jeito, mas pouca gente ia olhar. Ele mostrava que até havia argumentos políticos a favor da reforma agrária, mas que a economia agrícola era outra coisa, não era um sistema feudal", disse.
Outra polêmica veio com a tese de doutorado de Castro na Unicamp, sobre a economia do açúcar no Brasil Colônia. "Todo mundo achava que escravidão só era compatível com uma produção inteiramente rudimentar, e o Castro dizia que a produção açucareira colonial era o que havia de mais avançado no século 16 em termos de progresso técnico."
Nos anos 1980, seu livro "A Economia Brasileira em Marcha Forçada" fez uma defesa do 2º Plano Nacional de Desenvolvimento, implementado no governo militar de Ernesto Geisel (1974-1979). Ao contrário de grande parte dos economistas progressistas, que consideravam o plano megalomaníaco, Castro afirmava que havia sido a resposta correta à primeira crise do petróleo, em 1973.
"A maior parte dos países escolheu a recessão, e o 2º PND escolheu avançar com a indústria. A gente tem essa herança até hoje, como por exemplo o polo petroquímico na Bahia. Ele não estava defendendo os militares, mas dizia que aquela política fazia sentido porque teria efeitos positivos em longo prazo", explicou Cardim.
Mais recentemente, Barros de Castro vinha se dedicando ao estudo das mudanças provocadas na economia internacional pela ascensão da China. Em outra tese que provocou debate, ele afirmava que o sucesso exportador chinês não se devia apenas ao câmbio desvalorizado e à mão de obra barata, mas a um método novo, próprio, de produção industrial.
"Ele achava que o Brasil não podia manter uma política industrial só defensiva. Como mudou a regra do jogo, você se defender pela regra anterior seria perder sempre", disse Cardim.
Em entrevista à Folha em abril deste ano, Castro detalhou suas primeiras conclusões sobre esse objeto de estudo.
"A China 1 é a do made in China (fabricado na China), e eles deram uma surra baseada em trabalho barato e em imitação tecnológica. A China 2 quer ser a do created in China (criado na China). Portanto, o ataque vem de baixo. Só faz sentido reforçar aquilo em que temos chance de correr mais rápido do que eles. O resto [da indústria brasileira] tem que ser redirecionado ou desaparecer", afirmou.
O economista era conselheiro do Centro Empresarial Brasil-China e do Instituto de Estudos Brasil-China, criado pela UFRJ em conjunto com a universidade Tsinghua, de Pequim, e dirigido pela professora Ana Jaguaribe.
"Castro não repousava nas glórias do passado, pensava em como resolver os dilemas do presente", disse Jaguaribe, uma das dezenas de colegas que passaram pelo velório, no átrio da capela do campus da UFRJ na Praia Vermelha, na Urca (a capela está em reformas, depois de destruída por um incêndio em março deste ano).
Além de Jaguaribe, foram à homenagem os veteranos economistas Maria da Conceição Tavares e Carlos Lessa, que se formaram com Barros de Castro no primeiro curso promovido no Brasil pela Cepal (Comissão Econômica para a América Latina e o Caribe). Depois do golpe militar de 1964, os três viveram no Chile.
Também passaram pelo velório os economistas João Paulo dos Reis Velloso, organizador do Fórum Nacional --que anualmente debate os desafios brasileiros--, Fabio Giambiagi e Theotonio dos Santos, que foi aluno de Castro no Chile.
'SENPAI'
O BNDES foi representado pelo vice-presidente, João Carlos Ferraz, que também trabalhou com Castro na UFRJ. Ferraz comparou o amigo morto a um "senpai", palavra japonesa que significa "pessoa mais velha que compartilha sua sabedoria". No governo Lula, Castro foi assessor da presidência do BNDES.
Barros de Castro morreu no domingo, em consequência da queda de uma laje do seu escritório, num anexo de sua casa. Ele não estava ao computador, mas a uma mesa lateral, onde preparava uma aula que daria hoje às 9h30 na pós-graduação em Políticas Públicas e Estratégia de Desenvolvimento do Instituto de Economia da UFRJ.
No velório, o diretor do instituto, Carlos Frederico Rocha, lembrou que Castro, Conceição e Lessa introduziram no curso a teoria estruturalista da Cepal, que estudava o desenvolvimento brasileiro a partir da inserção econômica internacional do país. "Sua 'Intrudoção à Economia' [livro escrito com Lessa] influenciou muitas gerações. Ele estava sempre pensando adiante. Foi uma perda irreparável", disse Rocha.
A viúva de Castro, a economista Ana Célia Castro, e as filhas Isabel, Ana Clara e Lavínia destribuíram no velório a letra de uma das músicas favoritas do economista, "Naquela Mesa", de Nelson Gonçalves. "Mais que filha, virei sua fã. A saudade está doendo muito em todas nós", disse Isabel, parafraseando a canção.
O corpo de Barros de Castro será enterrado às 16h de hoje no cemitério São João Batista, em Botafogo (zona sul do Rio).