Para ingleses e irlandeses, terrorismo não remete apenas a Osama Bin Laden, Al-Qaeda ou 11 de setembro. Durante mais de três décadas, as ilhas vizinhas sofreram com a disputa territorial histórica que acabou sendo travada com carros-bomba, tiroteios, ataques a hotéis, centros comerciais e sistemas de transporte. O resultado foram cerca de quatro mil mortos e outras dezenas de milhares com traumas físicos e psicológicos.
No centro do conflito está a província do Ulster, região norte da Irlanda, que começou a ser ocupada por colonos ingleses entre os séculos XVI e XVII, quando os britânicos dominaram o país. Em 1921, após uma série de batalhas, os irlandeses conseguiram oficializar a retomada de seu território, mas, para isso, tiveram que ceder grande parte do Ulster à Grã-Bretanha, que rebatizou a região de Irlanda do Norte.
O acordo selado entre Dublin e Londres passou a ter consequências mais graves no final da década de 1960, quando católicos republicanos, após anos de discriminação e repressão, iniciaram séries de manifestações contra o domínio inglês.
Do outro lado, unionistas protestantes, maioria na região e favoráveis a coroa britânica, articularam atos em defesa de seus interesses. A convivência entre as duas partes nunca foi pacífica, mas os distúrbios se intensificaram de forma dramática neste período e, rapidamente, as autoridades locais perderam o controle da situação.
Militares britânicos foram enviados à região, o que só agravou a tensão e impulsionou a criação de grupos paramilitares dos dois lados. Entre os republicanos, surgiu o IRA (Exército Repúblicano Irlandês, na sigla em inglês), organização inspirada no exército homônimo que lutou contra a Inglaterra no início do século XX.
Em pouco tempo, o IRA recebeu a alcunha de rede terrorista, por seus ataques a bomba e ações armadas realizados frequentemente em Belfast e Londres. Somente na capital do Reino Unido, foram 32 atentados atribuídos ao grupo entre os anos 1970 e 2000. Na lista dos alvos estão lojas famosas, como a tradicional Harrod's que foi atacada três vezes, hotéis de luxo, entre eles o London Hilton localizado em frente ao Hyde Park, e diversas estações de metrô e trem.
Ainda assim, as ações na capital britânica não representam a total gravidade do conflito, segundo a pesquisadora Marie Breen-Smyth. "Sem dúvida, Londres teve diversos atentados a bomba em sua história. Mas o que aconteceu na capital não se compara ao vivido na Irlanda do Norte. Eu me lembro de estar na universidade de Belfast durante a década de 1970 e não era nada incomum ouvir dez explosões na cidade durante o mesmo dia. Isso nunca aconteceu em Londres em nível semelhante", relata.
Autora de diversos livros sobre o conflito e estudiosa dos impactos causados pelos distúrbios armados na sociedade, Breen-Smyth explica que "quase quatro mil pessoas foram mortas na Irlanda do Norte. Isso significa que grande parte da população teve ao menos um parente assassinado ou até mesmo testemunhou alguma ação do IRA".
À época mais intensa dos ataques, período conhecido como "The Troubles", a população da Irlanda do Norte era de aproximadamente 1,5 milhão de pessoas. "Nós tivemos um conflito civil que, proporcionalmente, foi gigantesco em seu efeito. Se os números de mortes fossem aplicados de forma proporcional, per capita, em outros países, seria o equivalente a 600 mil mortes nos EUA ou 400 mil no Brasil. Sem dúvida, números como esses representariam uma tragédia catastrófica em qualquer sociedade", relata Ed Moloney, jornalista irlandês autor do livro A Secret History of the IRA (Uma história secreta do IRA, em tradução livre).
Moloney, que cobriu as atividades do grupo paramilitar durante três décadas, avalia que apesar de ter matado muitos civis em seus atentados, o IRA não pode ser comparado a Al-Qaeda. "Uma diferença é que o IRA era um grupo político, enquanto a Al Qaeda é uma rede religiosa cujo os objetivos são avançar nas causas de sua crença", diz. Para o autor, isso afetou a forma como cada um dos grupos lutou, ou luta, as suas guerras. Prioritariamente, o IRA buscava mudanças políticas com seus atentados "e civis foram mortos, sem dúvida. Mas eles sustentaram que esse nunca foi o objetivo. Os civis foram assassinados intencionalmente durante ações que pretendiam causar danos econômicos, explodindo centros comerciais. Ou ainda atingindo integrantes das forças de segurança, como policiais e militares".
Nesse sentido, as vítimas de atentados e tiroteios foram tratadas pelo IRA como efeito colateral. O grupo corria o risco de acabar alienando a opinião pública contra a sua causa, caso atacasse deliberadamente alvos civis. "Até mesmo seus seguidores de linha-dura não aceitavam essa estratégia. Por outro lado, a Al-Qaeda pouco se importa com opinião pública", completa.
A professora Marie Breen-Smyth concorda com a avaliação, mas lembra que "no quesito violência contra alvos aleatórios", os dois grupos se assemelham. "O IRA não atacava simplesmente tentando maximizar o número de vítimas civis, como a Al-Qaeda, aparentemente, faz", pondera. "De qualquer forma, o medo gerado pelas ações violentas é peculiar as duas situações. Norte-irlandeses e ingleses viveram permanentemente assustados com as possibilidades de explosões, tiroteios, assassinatos. E, sem dúvida alguma, esse é o mesmo sentimento que os moradores de algumas regiões do Paquistão, do Afeganistão e do Iraque têm nesse momento".
A situação em Belfast e Londres começou a se normalizar apenas em 1998, após a assinatura do Acordo da Sexta-Feira Santa. Seguindo os termos do documento, o parlamento britânico aceitou um governo autônomo na província, com representação proporcional das comunidades unionista protestante e católica republicana. A Irlanda, por sua vez, retirou de sua constituição o artigo que exigia a busca pela reintegração da província do Ulster.
Apesar de alguns incidentes nos últimos anos, o processo de paz na região tem prosperado e, desde então, o número de ações violentas caiu de forma drástica. "Hoje, nós temos uma situação em que os conflitos, os tiroteios e a explosão de bombas foram reduzidos a praticamente zero", explica Breen-Smyth. A pesquisadora também ressalta que "um outro ponto é o funcionamento do Parlamento da Irlanda do Norte. Evidente que a atuação dos políticos locais ainda náo é totalmente efetiva, tampouco independente. Mas há um direcionamento para isso. A cada dia, os políticos norte-irlandeses estão mais envolvidos em questões locais como saúde e educação. Antigamente, as únicas discussões eram sobre soberania, nacionalismo e lealdade".
O Acordo da Sexta-feira Santa também ajudou a desmilitarizar a região. Como parte dos termos assinados, os paramilitares tiveram que renunciar as armas e os britânicos que retirar suas tropas e remover grandes instalações militares. Dessa forma, a sociedade local pôde voltar a algo mais próximo do normal, com uma presença mínima de militares. "Quem foi à Irlanda do Norte durante as décadas de 1970 ou 1980 e retornar agora, mal vai reconhecer o país. Toda a presença militar ostensiva, armas, bloqueios militares, tudo isso se foi. E, basicamente, hoje a região se parece com uma sociedade normal", finaliza a estudiosa.
Aos poucos, o processo de paz se consolida. Entretanto, a presença de diversos grupos republicanos dissidentes, como IRA-Continuidade, o IRA Real, o Exército de Libertação Nacional Irlandês e o Óglaigh na hÉireann, mantêm as autoridades em alerta.
"Sempre haverá um grupo de pessoas que gostaria de ver a Irlanda do Norte unificada com a República da Irlanda. Este conflito está no centro da política, da economia e nos problemas sociais sofridos pela população católica", analisa Moloney. "Entretanto, essas questões já foram abordadas e corrigidas pelo Acordo da Sexta-feira Santa e a maioria dos católicos está contente com a resolução. Dessa forma, a principal causa do conflito foi amplamente removida."
Hoje, existem evidências concretas de que a Irlanda do Norte está seguindo em frente. Lentamente, novas relações tem sido estabelecidas, como o governo compartilhado entre unionistas protestantes e republicanos católicos. A própria visita da rainha Elizabeth II a Dublin, no último mês de maio, comprova esse processo. Contudo, a história sempre ficará marcada. E a violência do passado não pode ser esquecida, até para que ela não seja repetida.