Um ônibus frescão que seguia da Praça Mauá para Duque de Caxias com pelo menos 20 passageiros foi sequestrado na noite de terça-feira, em frente à Universidade Estácio de Sá, na Avenida Presidente Vargas, no Centro, por quatro bandidos - um deles de gravata - armados com granadas e pistolas.
Houve perseguição policial e intensa troca de tiros, até que cinco carros da PM conseguiram interceptar o coletivo na altura da Praça Onze. Seis pessoas foram baleadas no tiroteio: três passageiros, um policial, um bandido e um homem que estava num carro que passava por perto.
Com o ônibus sob o controle do bando, equipes do Bope foram para o local negociar a libertação dos passageiros. Às 21h35m, a Secretaria estadual de Segurança deu por encerrada a ação, que durou pouco mais de uma hora.
A passageira Fabiana Gomes da Silva, de 30 anos, foi baleada no glúteo. Uma outra, Lisa Monica Pereira, de 46, levou um tiro no tórax que atravessou o pulmão. Ela foi levada para o centro cirúrgico do Hospital Souza Aguiar e seu estado é grave.
Também passageiro, Josuel dos Santos Messias, de 46, levou um tiro na perna. Alcir Pereira Carvalho, de 56, que estava de carona num Montana, foi baleado no pescoço. Um policial, que fazia parte do grupo que conseguiu parar o ônibus, também foi ferido. O bandido Jean Junior da Costa Oliveira, de 21 anos, levou um tiro na perna.
Bandido fugiu para favela levando casal
O assalto começou por volta das 20h20m. O jornalista Rafael Lima, que estava em outro ônibus e assistiu parte da ação, contou que, num primeiro momento, achou que se tratasse de um arrastão, cada vez mais comuns naquele trecho. Uma passageira, que na noite de terça estava no Hospital Souza Aguiar acompanhando um dos feridos, contou que embarcou no ônibus na altura da Avenida Rio Branco.
Os quatro bandidos, segundo ela, já estavam dentro do veículo. Na altura do Sambódromo, o motorista resolveu descer, desconfiado da movimentação, para pedir ajuda a policiais. Quando um policial fez menção de subir no ônibus, um dos criminosos jogou uma granada, que não explodiu, e aproveitou para fugir levando uma refém.
Na confusão, os outros dois bandidos determinaram que todos os passageiros fossem para o fundo do ônibus e fechassem as cortinas. Também mandaram um passageiro assumir a direção, mas ele só conseguiu dirigir alguns metros.
Hélio Gomes, de 30 anos, foi obrigado pelos bandidos a dirigir o coletivo na Presidente Vargas, no trecho entre a Universidade Estácio de Sá e a estação Cidade Nova do Metrô.
O analista de sistemas contou que entrou no ônibus na Central do Brasil e acredita que os bandidos já estivessem dentro do coletivo. Já na Avenida Presidente Vargas, o motorista encostou o ônibus e ficou parado por cerca de 20 minutos.
- Achamos que o ônibus havia enguiçado. Depois de um tempo, um policial entrou e pediu para todos colocarem as mãos no banco à frente porque os passageiros seriam revistados. Éramos cerca de 20 pessoas, a maioria mulher - disse Hélio, ao deixar a delegacia.
Neste momento, os bandidos teriam se revelado, desarmado o policial e o expulsado do ônibus. O motorista já havia fugido do coletivo. Como Hélio aparentava estar calmo, os assaltantes colocaram a arma em sua cabeça e o obrigaram a assumir a direção. O analista de sistemas furou o bloqueio policial e avançou na Avenida Presidente Vargas, até os policiais começarem a atirar na direção dos pneus.
- Nesse momento, os assaltantes se refugiaram no fundo do ônibus e eu me abaixei. Quando o ônibus parou, quebrei a janela lateral e fugi - contou.
Hélio afirmou ter visto apenas granadas nas mãos dos bandidos. A única arma seria aquela tirada do policial que entrou no ônibus. Os assaltantes falavam que uma das granadas estava sem pino. Enquanto um dos bandidos ameaçava matar os passageiros, o outro falava que não queria fazer isso.
- A PM veio atrás fazendo disparos e furaram os pneus do ônibus, o que permitiu que houvesse o cerco policial - contou uma passageira que não se identificou.
A ação teve cenas de cinema. Antes de o ônibus sair da frente da faculdade, um dos bandidos desceu com uma refém e atravessou a Avenida Presidente Vargas fazendo disparos a esmo. Ele liberou a passageira e parou um Zafira com um casal, que também foi feito refém. Policiais que estavam no local pegaram um Fiesta, abandonado durante o tiroteio, e iniciou uma perseguição. No trajeto, o celular do dono do Fiesta tocou e um dos PMs que estavam no carro em alta velocidade explicou o veículo logo seria devolvido. A perseguição seguiu pela Avenida Brasil até Manguinhos. Lá o bandido largou o Zafira e fugiu para a favela. O casal refém acelerou o carro, mas foi alcançado pelos PMs. No início da madrugada, o criminoso Jean Junior da Costa Oliveira, de 21 anos, foi preso no Hospital São Lucas, em Copacabana, onde chegou baleado.
O subcomandante da PM, coronel Álvaro Garcia, disse que os bandidos foram os responsáveis pelos ferimentos nas vítimas, mas uma testemunha deu outra versão.
- Assim que o ônibus começou a andar, os PMs atiraram nos pneus. Em seguida, uma das moças saiu ferida de dentro do ônibus. Um policial e um homem que passava ajudaram a retirá-la - contou o técnico em segurança Rogério Ribeiro.
Uma das primeiras a registrar queixa na 6ª DP (Cidade Nova), Mara dos Santos, de 52 anos, deixou a delegacia ainda bastante abalada. Ela contou que havia saído do camelódromo da Uruguaiana, onde trabalha, e pegou o ônibus para voltar para casa, em Caxias.
- Nunca achei que iria passar por isso. Eram três bandidos. Acho que os tiros que atingiram passageiros vieram de fora do ônibus. Foi uma noite horrível de terror - disse.
Toda a ação provocou um grande nó no trânsito no Centro. As duas pistas da Presidente Vargas em direção à Zona Norte - a da direita, com três faixas, e a central, com quatro - foram interditadas entre a Central do Brasil e a Praça da Bandeira. O trânsito foi desviado para o Túnel João Ricardo numa operação de emergência da CET-Rio. O acesso à Praça da República também teve que ser interditado para evitar que mais carros entrassem na Presidente Vargas. Além disso, os painéis informativos da CET-Rio, no Centro, avisavam sobre a interdição e a operação policial.
Um dos quatro bandidos fugiu
A polícia informou que foram quatro e não três bandidos que participaram do sequestro do ônibus. De acordo com a delegada responsável pelo caso, Gisele Rosemberg, o último integrante da quadrilha já foi identificado por fotos do banco de dados da Polícia Civil e terá um mandado de prisão preventiva expedido.
Os dois bandidos presos no local do crime,após se renderem foram identificados como Renato da Costa Júnior, de 21 anos, e Bruno Silva Lima, de 19. O terceiro preso foi capturado no início da madrugada desta quarta-feira, quando deu entrada no Hospital São Lucas, em Copacabana. Funcionários da unidade desconfiaram de Jean Júnior da Costa Oliveira, de 21 anos. O paciente deu entrada no hospital com um tiro na perna. Policiais militares do 19º BPM (Copacabana) estiveram no local e prenderam Jean após ele ter sido reconhecido por um dos passageiros do ônibus.
Jean conseguiu fugir do ônibus assim que o assalto foi anunciado. O bandido fez um passageiro refém até entrar em um carro Zafira, onde estava um casal. Um trio de policiais militares entrou em um Fiesta que havia sido abandonado pelo proprietário e houve perseguição. Jean desembarcou na favela de Manguinhos e seguiu a pé para o interior da comunidade. Os donos do Zafira saíram em disparada em seguida.
A delegada Gisele Rosemberg disse que os depoimentos dos reféns são desencontrados devido ao tamanho do ônibus e a baixa luminosidade. Alguns passageiros haviam dito que eram apenas três assaltantes, porém, outros reféns e o motorista do coletivo foram categóricos ao afirmar que foram quatro pessoas que embarcaram. O quarto sequestrador, que não teve o nome revelado, teria fugido junto com Jean.
Também segundo o depoimento de algumas vítimas, nenhum dos bandidos que estavam no ônibus teria atirado. Os reféns contaram que os disparos foram feitos apenas pelos policiais com o intuito de acertarem os pneus. A delegada irá pedir uma perícia mais detalhada do ônibus.
O grupo irá responder, a princípio, por três crimes: roubo triplamente qualificado (concurso de pessoas, uso de arma de fogo e restrição de liberdade), formação de quadrilha e receptação, já que estavam com uma arma roubada. Com eles foram apreendidos três pistolas, sendo uma do policial militar que foi desarmado, uma com numeração raspada e a última que havia sido roubada na área da 35ª DP (Campo Grande), e também uma granada.
Em entrevista no local do sequestro do ônibus, o comandante da PM, Mário Sérgio Duarte, parabenizou os envolvidos no resgate dos reféns:
- A operação de resgate foi um sucesso, e a negociação foi muito bem coordenada, com participação de varias unidades da PM, da Guarda Municipal e do Corpo de Bombeiros.
Durante as negociações - conduzidas pelo comandante do Bope, Willian René - os bandidos entregaram a granada aos policiais, como sinal de cooperação. Agentes do Batalhão de Choque, do Grupamento de Salvamento da PM e do 4º BPM também participaram da ação.
A tentativa de assalto ao ônibus foi frustrada graças ao motorista do veículo, que, ao passar em frente à Universidade Estácio de Sá, sinalizou para um agente da PM, que fazia o policiamento de rotina na rua. O policial entrou no ônibus e foi rendido pelos assaltantes, que tomaram sua pistola. O agente tentou conversar com os bandidos e, num momento de distração deles, pulou para fora do ônibus, chamou ajuda e informou sobre a ocorrência.
Pelo menos três passageiros que estavam no ônibus assaltado na Avenida Presidente Vargas buscaram refúgio no Campus da Praça Onze da Universidade Estácio de Sá. Uma professora que saía da faculdade abandonou o carro no meio da rua ao ouvir os tiros, e buscou refúgio na universidade. As informações são de uma funcionária do estabelecimento que não se identificou. Professores, funcionários e alunos aguardaram dentro da instituição, que fechou as portas, o desfecho do caso.
A professora Fernanda Vuono, que leciona na faculdade de Desenho Industrial da Estácio de Sá, disse ao GLOBO que um homem armado entrou com uma mulher no ônibus da Viação Jurema com pessoas feitas reféns na via:
- A gente estava em aula e ouviu uma gritaria. Um assaltante pegou uma menina, botou a arma na cabeça dela e entrou num ônibus tipo frescão.
Ainda segundo a professora, o homem libertou alguns passageiros. De acordo com Fernanda, alunos e funcionários não foram autorizados a deixar o campus. A polícia pediu para que as janelas do prédio fossem fechadas.
O caso mais famoso de pessoas feitas reféns em ônibus foi o do 174 - em junho de 2000 - que acabou virando filme . Na ocasião, o sequestrador, Sandro do Nascimento, manteve reféns no coletivo durante várias horas, na Rua Jardim Botânico. Ao final do dia, a última refém, Geisa Gonçalves, de 21 anos, acabou morta. E o sequestrador foi assassinado no carro da polícia, depois de rendido, pelos policiais que o prenderam, como apurou o inquérito.
O caso mais recente deste tipo de crime aconteceu em julho deste ano , quando dois homens armados causaram pânico na durante uma tentativa de assalto dentro de um ônibus da linha 352, no sentido Centro da Avenida Presidente Vargas, em frente à sede da prefeitura. Um tiroteio com policiais militares do Batalhão de Policiamento em Áreas Turísticas (BPTour) deixou cinco pessoas feridas, entre elas os dois bandidos.
Assaltos a ônibus também são muito comuns nas linhas que passam pela Ponte Rio Niterói. Na última quinta-feira, um coletivo da Viação 1001 que seguia do Rio de Janeiro para Piratininga, Região Oceânica de Niterói, sofreu um assalto por volta das 19h30m . Três bandidos entraram no veículo em pontos diferentes e anunciaram o assalto um pouco antes da subida da Ponte. De acordo com o motorista, que não quis se identificar, havia cerca de 30 passageiros no ônibus e todos foram assaltados. Pelo menos três pessoas ficaram feridas.
Especialistas analisam sequestro de ônibus
A constante queda nos principais índices de criminalidade do estado não é garantia para que casos como o do sequestro ao ônibus, que parou o Centro do Rio, continuem a acontecer na cidade. Os próprios números de assaltos em coletivos estão em queda: entre janeiro e junho de 2010 foram 4.021 registros. No mesmo período deste ano, 3.498 (queda de 13%). Na região do entorno da Avenida Presidente Vargas, há a Unidade de Polícia Pacificadora (UPP) do São Carlos, que atende a um complexo de nove favelas.
- É preciso dizer que nenhuma cidade do país e do mundo está livre de viver eventos iguais. Por isso precisamos avaliar um conjunto de ações e não fazer julgamento em função de eventos isolados - afirmou o sociólogo Ignácio Cano, do Laboratório de Análise da Violência da Uerj.
Ao analisar o caso, Cano lembrou ainda que pautar a política de segurança pública apostando apenas na expansão das UPPs não resolve a questão da violência.
- O estado precisa propor um conjunto de medidas, como metas de redução da letalidade da polícia, taxa de esclarecimento de crimes, sobretudo de homicídio; melhor formação e melhores salários para os policiais. UPP sozinha ajuda, mas não muda questão central da violência - disse Cano.
Para o sociólogo a polícia precisa abandonar a troca de tiros por investigações profundas do crime organizado, desarticulando suas redes:
- O importante é criar mecanismos para investigações profundas, evitando atuar apenas nos grandes eventos.
Para a antropóloga Alba Zaluar, coordenadora do Núcleo de Pesquisa das Violências (Nupev) da Uerj, a situação do Rio avançou bastante desde o sequestro do 174. Ela elogiou a atuação da polícia que lidou com o problema sem que houvesse mortos. Ela disse que a pacificação de favelas não é suficiente para evitar esse tipo de crime.
- A pacificação foi feita em determinados territórios. Isso não quer dizer que a cidade vai ficar livre de crimes. Ainda não muito criminosos na cidade, fruto de anos e anos de abandono. O que está faltando é apostar em projetos sociais, principalmente, para jovens.
