Anders Behring Breivik deixou a Europa em estado de choque quando explodiu uma bomba nas proximidades do gabinete do premiê norueguês e depois rumou à ilha de Utoya para abrir fogo contra a juventude do Partido Trabalhista. Os 77 mortos do terror de Oslo de julho de 2011, embora não representem nem de longe o mais fatal episódio terrorista recente sofrido pela Europa, destilam novos e desafiadores elementos ao Velho Continente, abrindo o precedente de um novo terror genuinamente europeu.
Terrorismo no solo do Velho Continente não é novidade na última década. Em 2004, menos de três anos do ataque ao World Trade Center em Nova York, o metrô de Madri foi alvo de explosões coordenadas que deixaram 191 mortos e quase dois mil feridos. Pouco mais de um ano depois, em julho de 2005, foi a vez do transporte público de Londres, quando quatro bombas vitimaram 56 pessoas e feriram aproximadamente 700.
Nos casos de 2004 e 2005, o agente causador foi exógeno e islâmico. Embora nenhum grupo tenha oficialmente reivindicado o ataque a Madri, as investigaçõs acabaram atribuindo-o a células inspiradas à Al-Qaeda. Já em 2005, embora sem o envolvimento da rede terrorista, os autores foram quatro cidadãos britânicos islâmicos, que fundamentaram o ataque criticando o apoio dado pelo governo britânico na campanha do Iraque, invadido pelos Estados Unidos em 2003.
Mais distante da Europa ocidental, a Rússia também foi alvo de ações terroristas na última década. Moscou, sozinha, protagonizou três: em 2002, na tomada da Casa de Cultura, com 170 mortos; em 2010, nas bombas dos metrôs, que deixaram 40 mortos; e em 2011, na explosão do aeroporto Domodedovo, com 36 vítimas fatais. Mas em todos estes casos (aos quais poderia ainda ser incluído o massacre da escola Beslan, em 2004, com mais de 380 mortos), a causa era a tensão entre a Rússia e separatistas da Chechênia, uma província russa nas proximidades do Oriente Médio e da Ásia, atualmente liderada por insurgentes islâmicos).
Todos estes episódios têm um agente causador ou motivador externo, seja ele a resistência islâmica à dominação ocidental ou a resistência chechena ao Estado russo. Não é o caso de Oslo. Seu perpetrador: Anders Behring Breivik, norueguês de 32 anos, com fenótipo representante do europeu nórdico tradicional. Seu alvo: membros do Partido Trabalhista, atualmente no governo da Noruega. Sua motivação: a tolerância à presença estrangeira em solo europeu.
Oslo nasce, assim, como o terror próprio da Europa, pois não somente tem ator, alvo e origem europeus, como também é resultado do próprio desdobramento do projeto europeu sobre si mesmo. Desde o horror da Segunda Guerra Mundial, a Europa trabalha para recompor sua imagem idealizada da Civilização das Luzes. Esse percurso pode ser bem exemplificado pelo esforço social-diplomático da criação da União Europeia, que vem crescendo gradativamente e pode até mesmo incluir a predominantemente muçulmana Turquia nos próximos anos.
É contra esse ideal europeu que o igualmente europeu Anders Behring Breivik disparou e explodiu bombas. O ataque ao Partido Trabalhista do premiê Jens Stoltenberg reflete o conteúdo teórico das 1,5 mil páginas que escreveu e mandou para amigos antes do ataque a Oslo, no qual disseca e acusa o que chama de "marxismo cultural" pela degenerescência do que acredita ser a "Europa".
Assim como o 11 de setembro se gestou durante anos pela presença ocidental na Ásia e no Oriente Médio, o ataque de Oslo tem sua própria pré-história recente. Na última década, reverberando o novo medo do terrorismo contemporâneo, a democracia da Europa abriu espaço para medidas polêmicas na Suíça, com a proibição da construção de minaretes (pequenas torres de mesquitas), e na França, com a proibição da burqa (o véu muçulmano usado por mulheres). Embora o argumento tenha um fundamento democrático (medidas que impedem a liberdade individual devem ser vetadas), ele abre a dúvida sobre a efetividade e a realidade da própria democracia praticada pelo Velho Continente: até onde o banimento de vestimentas funcionaria ou mesmo militaria a favor de uma maior "tolerância"?
Oslo 2011 não foi o primeiro ataque terrorista na Europa, e nem mesmo o primeiro no pacífico trio de países da Escandinávia: em 2002, Petri Erkki Tapio Gerdt, um finlandês amante de explosivos, detonou uma bomba num shopping na periferia da capital Helsinki, matando 7 pessoas e ferindo 166. Mas dado o contexto recente da ascensão da chamada "extrema-direita" e do novo terrorismo "Ocidente x Islã", joga luz sobre os limites e os desafios que a própria democracia ocidental traz consigo mesma e gesta, agora, em seu próprio berço.