Em visita ao Rio, o vereador Agnaldo Timóteo (PR-SP) admitiu nesta quinta-feira ter escrito a carta que menciona uma suposta cobrança de propina por "oportunistas" de seu partido, mas afirma não ter acreditado nas denúncias de Geraldo de Souza Amorim.

"A gente nem sabe se são verdadeiras essas denúncias do Geraldo. Ele me afirmou certa vez que alguém o havia procurado em nome do PR. Como é que a gente vai saber se isso é verdade? Não me deu o nome de ninguém. Eu não sei como eu agiria se conhecesse o tal personagem."

Segundo reportagem publicada hoje pela Folha, Timóteo mandou carta em papel timbrado da Câmara Municipal de São Paulo a Geraldo, um antigo aliado, em que menciona cobrança de propina por "oportunistas" de seu partido e cita o deputado Valdemar Costa Neto (PR-SP).

Leia abaixo a entrevista com Timóteo:

Folha - O que o sr. tem a dizer sobre essa carta. É verdadeira a carta?

Agnaldo Timóteo - Claro que a carta é verdadeira, gente, ora que bobagem. Ali o que eu estou dizendo são fatos. O Geraldo um dia me reclamou que alguém o havia procurado dizendo-se representante do PR e pedindo grana para ele. Ponto. Agora, eu o levei ao ministro, eu o levei à mesa do Kassab sem pedir um cafezinho, porque eu tenho esse tipo de comportamento. Depois, nos tornamos amigos, ele me ajudou na campanha de 2008, e muito, me levou lá, pediu voto pra mim. Eu sou uma pessoa agradecida ao Geraldo. Só que ele tem um inimigo lá dentro que acabou tomando dele o que ele construiu, um tal de Ailton, que tanto fez fofoca, fez denúncias contra ele, que quando eu fui pedir ao Valdemar Costa Neto a possibilidade de ampliarmos a licença para o Geraldo, ele estava ensandecido: "Nem me fala, nem me fala. Recebi denúncias de que ele estaria usando o terreno da rede ferroviária como se fosse dele". Lamentavelmente, o Ailton acabou tomando dele aquele espaço.

Quem são essas pessoas que teriam pedido a ele essa propina, o sr. perguntou?

Como é que eu vou saber? Ele nunca me deu o nome de ninguém. Ele me afirmou certa vez que alguém o havia procurado. A gente nem sabe se são verdadeiras essas denúncias do Geraldo. Ele me afirmou certa vez que alguém o havia procurado em nome do PR. Como é que a gente vai saber se isso é verdade? Não me deu o nome de ninguém. Eu não sei como eu agiria se conhecesse o tal personagem. Mas eu não tenho esse tipo de ligação com o poder. Eu lamentavelmente estou no meu quinto mandato e continuo zé mané. Eu briguei muito pelo Geraldo, me manifestei muito na tribuna pelo Geraldo, porque eu me dava e me dou muito bem com ele e lamento muito que ele tenha perdido o que ele plantou. Aquilo foi ele que plantou, ele que construiu aquilo tudo que está lá. E o inimigo dele tomou dele.

Mas essas pessoas do PR que teriam procurado ele, esse dinheiro era pra quê?

Quais são essas pessoas? Quais são essas pessoas? E como é que eu vou saber?

Foi o sr. que colocou por escrito numa carta.

Alguém me procurou dizendo-se representante do PR, ele nunca me deu o nome, nunca me deu o endereço. Como é que eu vou saber?

Na carta o sr. fala em "oportunistas do meu partido".

Claro, porque se alguém se apresenta como representante do PR, o PR não tem um dono. O PR tem várias pessoas importantíssimas dentro do seu contexto. O Valdemar é poderoso? É. Mas o Alfredo, que acabou de sair, também é. O Garotinho também é. O Antonio Carlos Rodrigues também é. Quando alguém se apresenta e diz tamanha barbaridade --e eu nunca vi nada disso, porque eu não tinha intimidade de ficar frequentando o ambiente do Geraldo, fui lá pouquíssimas vezes, nunca mais voltei lá depois que ele perdeu o seu espaço.

O sr. não achou que seria o caso de investigar ou avisar ao partido sobre essa denúncia?

Não, eu, desculpa. Não eu. Por que eu vou investigar alguma coisa que eu nem tenho conhecimento? Uma coisa eu posso afirmar: levei o Geraldo, com o maior carinho, porque foi o pedido de um amigo meu, ao ministro Alfredo Nascimento, que nos recebeu numa audiência coletiva. Não fomos lá conversar de maneira privada, escondidinha. Estávamos lá no mínimo meia dúzia de pessoas, sentados à mesa, conversando com o Alfredo Nascimento. E o Alfredo Nascimento conseguiu para ele uma liberação de mais dois anos. E eu lamento muito que ele tenha perdido porque ele exercia lá um trabalho social extraordinário.

O sr. o levou para ver o ministro e também o prefeito Kassab?

Levei-o ao Kassab porque ele queria alguma interferência, alguma ajuda do Kassab em relação a algumas exigências do município. Também era uma reunião de pessoas, não foi uma conversinha fechada, não entro nessa não.

E esse Alexandre, que aparece na carta, que o teria apresentado ao Geraldo?

Alexandre foi a pessoa mais importante da minha carreira como vereador de São Paulo. Porque, quando nós fizemos a primeira campanha, de manhã ele fazia nosso café, e à noite, quando chegávamos, ele fazia a nossa janta. É uma pessoa muito importante no meu contexto de vereador em São Paulo e eu sou muito agradecido a ele. Foi ele que pediu pelo Geraldo.

É um assessor seu?

É um dos meus assessores. Alexandre Oliveira. Ele pediu: eu tenho um amigo que precisa falar com o ministro Alfredo Nascimento. Pedi a audiência, o ministro marcou, fomos a Brasília, meia dúzia de pessoas, eu, o Geraldo, o genro dele, o advogado dele. Foi uma reunião coletiva. Não era uma coisa de segredinhos. Porque eu não tenho essa intimidade com ninguém do poder.

E essa história do cargo no seu gabinete? Eu gostaria de entender isso.

O que o Geraldo fez por mim na campanha de 2008 é simplesmente gratificante. Me levou várias vezes, pediu voto para aquele pessoal todo das barracas dele, fui lá cantar para o pessoal dele. Então quer dizer, o Geraldo me ajudou muito. Sou gratíssimo a ele. A filha dele tinha um cargo no meu gabinete, porque é advogada, está fazendo estágio, belíssima, inteligente, simpática. Mas teve uma hora que eu precisei do cargo para dar para uma pessoa que precisava mais do emprego. Só isso.

Essa demissão tem alguma relação com essa briga dele com o deputado Valdemar Costa Neto?

Que isso, nem pensar numa coisa dessas. Nada a ver uma coisa com a outra. Eu precisei do cargo. Para colocar uma pessoa que é pai de uma criança, que paga pensão para a criança, que paga aluguel. Eu precisei colocar, que é um rapaz que eu conheço há 12 anos. Então pedi o cargo. Mas continuo amigo dele [Geraldo]. Dei um título de cidadão paulistano para ele! Tal o carinho com que eu o tratava sempre. Eu costumo ser muito grato às pessoas.

Mas mesmo assim o sr. não deu credibilidade quando ele falou em pessoas do PR que teriam cobrado propina dele?

Não, senhor. Jamais falei pessoas. Esse plural é seu. Ele falou: alguém me procurou dizendo-se representante do PR. Nunca me disse quem, nunca me disse nome, nunca me disse endereço.

E o sr. também não teve curiosidade em saber?

Por quê? Por quê? Eu disse: "Geraldo, tenha cuidado, pode ser alguma armadilha". Você sabe, isso é muito comum nos dias de hoje, os senhores da imprensa são especialistas em preparar armadilhas, os senhores são especialistas em destruir pessoas, como fizeram com o Pitta, com o Sérgio Naya, com a Escola Base, com o Maluf. Então a gente tem que ter muito cuidado, porque pode ser uma armadilha. E quase sempre são armadilhas. Como eu estou no meu quinto mandato e continuo vivendo a minha vida modesta, eu prefiro não me envolver com aqueles que detêm o privilégio do poder. Se houvesse alguma coisa na minha carta que me pudesse criar algum embaraço eu não teria mandado, não teria assinado. Se houvesse algum detalhe na carta que pudesse me criar qualquer tipo de constrangimento, eu não teria enviado a carta.