O coordenador do Grupo de Análises e Previsões do Ipea (Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada), Roberto Messenberg, disse nesta quarta-feira (20) que o Banco Central "se separou do mercado, mas ainda está morando na mesma casa", em referência à manutenção da política de elevação de juros por parte da autoridade monetária com o objetivo de conter as expectativas futuras de aumento da inflação.
Para Messenberg, o BC tem condições de manter --ou até mesmo reduzir-- a taxa de juros já na reunião desta quarta-feira do Copom, mas não o faz por estar em "processo de separação de um longo casamento com o mercado".
Segundo o economista, o BC tenta com o aumento dos juros indicar ao mercado que se preocupa com o controle da inflação e evitar que as expectativas futuras se elevem --o que tem potencial de alimentar novos aumentos de preço.
Para Messenberg, a tentativa de conter o consumo e controlar a inflação apenas com juros mais elevados é equivocada. Isso porque, segundo ele, resulta apenas na redução da inflação por um período "transitório". "No longo prazo, a inflação voltará ao mesmo nível por causa da indexação da economia brasileira [como, por exemplo, no caso dos salários]."
O economista defende outros mecanismos para promover um "controle estrutural" da inflação. Entre eles estão medidas de contenção do crédito, como o aumento dos depósitos compulsórios recolhidos pelos bancos --o que reduz a circulação de dinheiro disponível para empréstimos. Desse modo, diz, é possível segurar o consumo.
"Não existe mais política monetária em nenhum lugar do mundo com um único instrumento, o de elevação dos juros."
Sem aumentar os juros, avaliou Messenber, a inflação ficaria mais alta por um tempo maior, mas no longo prazo haverá uma redução estrutural dos índices de inflação. Isso porque os juros menores permitirão ampliar o investimento público e "eliminar gargalos" à produção (como na área de infraestrutura), reduzindo custos e consequentemente preços.
"A ideia é trocar consumo privado por investimento público. Isso só é possível com juros mais baixos", afirmou.
O Ipea prevê que a inflação feche 2011 entre 5% e 6% --abaixo, portanto, do teto da meta do governo para o IPCA (Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo), que é de 6,5%. A estimativa está descolada da maioria das instituições privadas, que esperam taxas próximas ou até mesmo um pouco superiores ao topo da meta.