O ex-policial Marcos Aparecido dos Santos, o Bola, negou, em audiência realizada nesta quarta-feira no Tribunal do Júri de Contagem (MG), que tenha matado a ex-amante do goleiro Bruno, Eliza Samudio. "Eu sou inocente, venho sofrendo há 400 dias. Nunca conheci Bruno nem Macarrão. Eu espero que vocês repórteres coloquem isso. Eu estou preso por causa de uma, duas, ou três ligações", afirmou ao alegar ter sido vítima de uma armação da polícia.
"O Edson Moreira (chefe do Departamento de Investigação de Homicídios de BH) declarou para mim que todo cachorro morto, que viesse rolando, ele iria jogar tudo nas minhas costas. Isso, na gíria policial, significa pessoa que morreu sem autoria", reclamou.
Ele afirmou ainda ter sido ameaçado de morte na penitenciária de segurança Máxima Nelson Hungria, onde aguardava julgamento antes de ser transferido para outro presidio pela morte de Eliza Samudio. Bola afirmou que foi jurado por outros presos confinados no local. "As ameaças eram gritadas. Você vai morrer lá fora ou vai morrer aqui dentro", disse.
As declarações foram dadas logo após a audiência que ouviu testemunhas da morte de um carcereiro em 2000, crime também atribuído a Bola. Ele nega o crime. Assim que parte dos depoimentos foi adiada para agosto, o ex-policial pediu para conversar com a juíza Marixa Fabiane Lopes, segundo ele, para negar pessoalmente que tenha tido um plano de matá-lá: "Nunca passou pela minha cabeça essas mentiras que foram faladas", afirmou, dizendo que o colega de cela que revelou o suposto plano seria um "sociopata".
A informação de que Bola pretendia matar a magistrada partiu de um ex-colega de cela do acusado. Depois de ouvir o ex-policial, a juíza disse que não tomaria qualquer medida contra ele: "Eu não tenho nada contra o senhor, mas o senhor está preso por outros motivos. Eu não vou tomar nenhuma providência contra o senhor. Não vou levar isso à frente nem vou ouvir essas pessoas porque estou ouvindo o senhor informalmente", afirmou Marixa.
O caso Bruno
Eliza desapareceu no dia 4 de junho de 2010 quando teria saído do Rio de Janeiro para Minas Gerais a convite de Bruno. No ano anterior, a estudante paranaense já havia procurado a polícia para dizer que estava grávida do goleiro e que ele a agrediu para que ela tomasse remédios abortivos. Após o nascimento da criança, Eliza acionou a Justiça para pedir o reconhecimento da paternidade de Bruno.
No dia 24 de junho, a polícia recebeu denúncias anônimas de que Eliza havia sido espancada por Bruno e dois amigos dele até a morte no sítio de propriedade do jogador, localizado em Esmeraldas, na Grande Belo Horizonte. Na noite do dia 25 de junho, a polícia foi ao local e recebeu a informação de que o bebê apontado como filho do atleta, então com 4 meses, estava lá. A mulher do goleiro, Dayanne Rodrigues do Carmo Souza, negou a presença da criança na propriedade. No entanto, durante depoimento, um dos amigos de Bruno afirmou que havia entregado o menino na casa de uma adolescente no bairro Liberdade, em Ribeirão das Neves, onde foi encontrado.
Enquanto a polícia fazia buscas ao corpo de Eliza seguindo denúncias anônimas, em entrevista a uma rádio no dia 6 de julho, um motorista de ônibus disse que seu sobrinho participou do crime e contou em detalhes como Eliza foi assassinada. O menor citado pelo motorista foi apreendido na casa de Bruno no Rio. Ele é primo do goleiro e, em dois depoimentos, admitiu participação no crime. Segundo a polícia, o jovem de 17 anos relatou que a ex-amante de Bruno foi levada do Rio para Minas, mantida em cativeiro e executada pelo ex-policial civil Marcos Aparecido dos Santos, conhecido como Bola ou Neném, que a estrangulou e esquartejou seu corpo. Ainda segundo o relato, o ex-policial jogou os restos mortais para seus cães.
No dia seguinte, a mulher de Bruno foi presa. Após serem considerados foragidos, o goleiro e seu amigo Luiz Henrique Romão, o Macarrão, acusado de participar do crime, se entregaram à polícia. Pouco depois, Flávio Caetano de Araújo, Wemerson Marques de Souza, o Coxinha Elenilson Vitor da Silva e Sérgio Rosa Sales, outro primo de Bruno, também foram presos por envolvimento no crime. Todos negam participação e se recusaram a prestar depoimento à polícia, decidindo falar apenas em juízo.
No dia 30 de julho, a Polícia de Minas Gerais indiciou todos pelo sequestro e morte de Eliza, sendo que Bruno foi apontado como mandante e executor do crime. Além dos oito que foram presos inicialmente, a investigação apontou a participação de uma namorada do goleiro, Fernanda Gomes Castro, que também foi indiciada e detida. O Ministério Público concordou com o relatório policial e ofereceu denúncia à Justiça, que aceitou e tornou réus todos os envolvidos. O jovem de 17 anos, embora tenha negado em depoimentos posteriores ter visto a morte de Eliza, foi condenado no dia 9 de agosto pela participação no crime e cumprirá medida socioeducativa de internação por prazo indeterminado.
No início de dezembro, Bruno e Macarrão foram condenados pelo sequestro e agressão a Eliza, em outubro de 2009, pela Justiça do Rio. O goleiro pegou quatro anos e seis meses de prisão por cárcere privado, lesão corporal e constrangimento ilegal, e seu amigo, três anos de reclusão por cárcere privado. Em 17 de dezembro, a Justiça mineira decidiu que Bruno, Macarrão, Sérgio e Bola serão levados a júri popular por homicídio triplamente qualificado, sendo que o último responderá também por ocultação de cadáver. Dayanne, Fernanda, Elenilson e Wemerson também irão a júri popular, mas por sequestro e cárcere privado. Além disso, a juíza decidiu pela revogação da prisão preventiva dos quatro. Flávio, que já havia sido libertado após ser excluído do pedido de MP para levar os réus a júri popular, foi absolvido. Além disso, nenhum deles responderá pelo crime de corrupção de menores.