O aumento da atividade de fusões e aquisições no Brasil no último um ano e meio está criando um cenário de alta demanda por advogados societários, forçando escritórios de advocacia a serem mais ativos na retenção de profissionais.
Só no primeiro semestre deste ano foram anunciadas fusões e aquisições envolvendo empresas brasileiras com valor combinado de US$ 53,54 bilhões, segundo dados da Thomson Reuters.
Apesar da queda de 15,8% em valor frente ao mesmo período de 2010, o número de operações cresceu 2,7%, para um total de 346.
"Não é como se o Brasil fosse uma opção, mas a opção", disse o sócio-diretor do escritório de advocacia Pinheiro Neto, Alexandre Bertoldi.
Considerando os valores dos negócios, o Pinheiro Neto foi o maior assessor jurídico de fusões e aquisições anunciadas com empresas braileiras de janeiro a junho.
As 23 transações em que o escritório paulistano está atuando como "legal advisor" --incluindo o lado do Carrefour na proposta fusão com o Pão de Açúcar-- totalizam US$ 14,4 bilhões.
A advogada Maria Cristina Cescon, sócia do escritório Souza, Cescon, Barrieu e Flesch, também viu o volume de trabalho crescer de forma substancial nos últimos anos. Seu escritório ficou em terceiro lugar no ranking da Thomson Reuters, com 12 transações e US$ 5,4 bilhões em valor de negócios no primeiro semestre.
"O volume de trabalho é grande e também inclui outras operações além de fusões e aquisições, como reorganizações societárias", disse ela, que atua pela Portugal Telecom na reestruturação da Oi.
"A atividade (de fusões e aquisições) vai estar quente para nós no segundo semestre", afirmou o advogado Francisco Müssnich, sócio do Barbosa, Müssnich e Aragão (BMA), quarto lugar no ranking, com US$ 4,8 bilhões em dez operações.
Alguns setores apontados pelos advogados incluem o ramo financeiro --especialmente em bancos médios--, varejo e consumo, infraestrutura, biocombustíveis e saúde.
Dos cinco primeiros escritórios de advocacia no ranking, apenas o Skadden é estrangeiro, com sede nos Estados Unidos. A banca está participando de dois negócios anunciados em 2011 até junho estimados em US$ 7,5 bilhões.
O Machado, Meyer, Sendacz & Opice aparece em quinto lugar, com 10 negócios que totalizam US$ 4,6 bilhões.
MERCADO PROFISSIONAL
Toda essa bonança tem gerado uma grande disputa por mão de obra especializada.
A demanda por esses profissionais tem sido impulsionada pelo grande número de novas transações, mas também pela entrada de escritórios internacionais visando uma fatia do mercado legal para fusões e aquisições no país, disse Bertoldi.
Um dos maiores escritórios do país, o Pinheiro Neto conta com um robusto quadro jurídico, cerca de 500 pessoas entre sócios, advogados e estagiários, mas tem apertado as margens de lucro e aumentado as bonificações a fim de não sofrer baixas de bons profissionais, disse o sócio-diretor.
"Não perdemos ninguém que não queríamos perder", disse Bertoldi, acrescentando que a cultura do escritório é de "cultivar" seus talentos desde cedo, ao invés de lutar no mercado por novos profissionais.
O Souza, Cescon, Barrieu e Flesch também tem se preocupado com a retenção de seus talentos, inclusive sendo mais competitivo em termos salariais no mercado. Segundo Maria Cristina, apesar de o escritório estar bem guarnecido de profissionais, sempre há a preocupação em reter funcionários.
"Esse segmento gera oportunidades e aprendizado [para o advogado]", disse ela. "Soma-se a isso um plano de carreira estruturado... nossa rotatividade é pequena", afirmou.