O diretor-executivo da Associação de Familiares das Vítimas do Voo AF 447 (AFVV 447), Maarten van Sluys, afirmou nesta sexta-feira que o relatório preliminar sobre as causas da tragédia aérea que vitimou 228 pessoas em 2009 "não traz nenhum fato surpreendentemente novo daquilo que já sabíamos". O documento foi divulgado hoje pelo Escritório de Investigações e Análises da França (BEA, na sigla em francês), que apura as causas do acidente.

Leia o relatório preliminar sobre as caixas-pretas do AF 447

"Tudo o que foi publicado no relatório nós já sabíamos, pois temos um grupo de especialistas que trabalha para a gente. Essas pessoas tinham antecipado o cenário e, em tese, as mensagens que foram enviadas pela aeronave nos momentos finais do voo se confirmam com o que foi divulgado hoje", disse o diretor-executivo da AFVV 447.

O estudo das gravações contidas nas caixas pretas da aeronave apontou que a composição da tripulação estava em conformidade com os procedimentos do operador e os dois copilotos se encontravam na cabine. O comandante de bordo, que repousava, voltou para a cabine cerca de 1 minuto e meio após a retirada do piloto automático.

Ânimos exaltados na França
Marteen van Sluys acredita que o comunicado do BEA serviu principalmente para "acalmar os ânimos na França", pois exime os pilotos de culpa na queda do avião. "Ontem mesmo recebi um telefonema de um piloto francês, nosso colaborador, que dizia haver um cenário hostil por parte dos pilotos a uma possível incriminação de seus colegas", disse Sluys.

Diálogos na íntegra seriam chocantes
Para o representante da AFVV 447, os diálogos finais registrados nas caixas pretas da aeronave não foram divulgados na íntegra para preservar a opinião pública. "Algumas falas foram suprimidas para não chocar as pessoas. A única coisa que questionamos é esse suspense todo, mas entendemos que, por questões jurídicas, o relatório final deve sair apenas em 2012. Acredito que tudo que aconteceu será relatado", afirmou Marteen van Sluys.

Em nota divulgada hoje, o BEA informou que o Airbus A330 da Air France despencou em alta velocidade, caindo de uma altitude de 11 km em apenas três minutos e meio. A velocidade de queda foi de 200 km/h e as causas do acidente ainda não são conhecidas.

Num relatório realizado por especialistas a pedido da Justiça francesa, divulgado pelo jornal Libération nesta sexta-feira, especialistas apontam que a tripulação da Air France não estaria bem preparada para enfrentar o problema de congelamento dos sensores de velocidade em alta altitude, por falta de formação e de treino. Isso, segundo o jornal, poderia ser uma "circunstância atenuante" para os pilotos.

O acidente do AF 447
O voo AF 447 da Air France saiu do Rio de Janeiro com 228 pessoas a bordo no dia 31 de maio de 2009, às 19h (horário de Brasília), e deveria chegar ao aeroporto Roissy - Charles de Gaulle de Paris no dia 1º às 11h10 locais (6h10 de Brasília). Às 22h33 (horário de Brasília) o voo fez o último contato via rádio. A Air France informou que o Airbus entrou em uma zona de tempestade às 2h GMT (23h de Brasília) e enviou uma mensagem automática de falha no circuito elétrico às 2h14 GMT (23h14 de Brasília). Depois disso, não houve mais qualquer tipo de contato e o avião desapareceu em meio ao oceano.

Os primeiros fragmentos dos destroços foram encontrados cerca de uma semana depois pelas equipes de busca do País. Naquela ocasião, foram resgatados apenas 50 corpos, sendo 20 deles de brasileiros. As caixas-pretas da aeronave só foram achadas em maio de 2011, em uma nova fase de buscas coordenada pelo Escritório de Investigações e Análises (BEA) da França, que localizou a 3,9 mil m no fundo do mar a maior parte da fuselagem do Airbus e corpos de passageiros em quantidade não informada.

Após o acidente, dados preliminares das investigações indicaram um congelamento das sondas Pitot, responsáveis pela medição da velocidade da aeronave, como principal hipótese para a causa do acidente. No final de maio de 2011, um relatório do BEA confirmou que os pilotos tiveram de lidar com indicações de velocidades incoerentes no painel da aeronave. Especialistas acreditam que a pane pode ter sido mal interpretada pelo sistema do Airbus e pela tripulação. O avião despencou a uma velocidade de 200 km/h, em uma queda que durou três minutos e meio. Em julho de 2009, a fabricante anunciou que recomendou às companhias aéreas que trocassem pelo menos dois dos três sensores - até então feitos pela francesa Thales - por equipamentos fabricados pela americana Goodrich. Na época da troca, a Thales não quis se manifestar.