A carioca Daniele Sampaio Visgueira é o mais novo nome a despontar dos relatórios entregues à Justiça italiana que denunciam orgias na casa do premiê Silvio Berlusconi. Divulgado com exclusividade pelo Terra, o nome de Daniele é citado em duas páginas da denúncia feita pela Procuradoria da República. Berlusconi é acusado de corrupção de menores por ter feito sexo a pagamento com garotas de programa menores de idade, sustenta a acusação. Ouvida pelo reportagem do Terra, Daniele nega as acusações.
"Fui na casa de Berlusconi, conheci, conversei. Fui para pedir trabalho porque ele é dono de uma emissora de TV aqui, e basta... não é que eu vi nada de estranho, menina pelada, nada de orgia ou alguma coisa assim. O jantar foi curtíssimo, acabou, foi todo mundo pra casa", diz ela, ao reclamar que as conversas foram usadas fora de contexto.
Eleita Miss América Latina no Mundo em 2008, a carioca foi interceptada telefonicamente pelos investigadores em 24 de outubro de 2010 em uma ligação feita às 18h49. Nela, a modelo que vive em Milão desde 2005 conversa com Lele Mora, espécie de caça-talentos do show business italiano que, conforme a Procuradoria, era um dos gestores das festas privadas de Berlusconi em sua mansão de Arcore.
Durante a conversa - obtida sob autorização judicial -, a brasileira reclama com Lele Mora por causa do cancelamento de um encontro que ela deveria ter, junto com outra garota, com Silvio Berlusconi. "Cancelamos tudo porque ele não está bem", disse Mora. "Ele", afirma a acusação, é Silvio Berlusconi. Após a promessa de que "em um semana" ambos fariam "outras coisas", Daniele é mais incisiva: "Certo, mas eu preciso trabalhar, ganhar dinheiro... sair desta casa que você não tem ideia, amor...".
Daniele também é citada em outro registro. Nele, Emilio Fede - âncora de televisão de um dos canais de Berlusconi e, ainda segundo a Procuradoria, outro organizador das festas de Arcore - conversa com Nicole Minetti, ex-dentista do premiê eleita deputada pelo partido de Mister B. (o Popolo della Libertà) na região Lombardia. Fede diz que saiu "duas ou três vezes" com Daniele mas, ao saber que ela havia "dito alguma coisa" tratou de tirá-la do jogo.
Em entrevista ao Terra, a brasileira diz que trabalha como modelo, atriz, faz aparições na TV, em eventos, festas, e trabalha também como show girl. "Mil e uma utilidades", em suas próprias palavras. Ela confirma que Lele Mora seja seu agente - "é um dos melhores empresários de Milão" -, mas diz que as conversas citadas no relatório eram sobre "trabalhos profissionais". Reafirma que conheceu Berlusconi no ano passado, mas não através de Lele, se sim de "uma outra pessoa".
"Pegaram meus telefonemas no qual eu falo com o Lele e falam isso ou aquilo, cada pode interpretar do jeito que quiser, ver maldade onde não tem", se defende. "Se fosse verdade, eu já teria voltado para casa há muito tempo, já estava rica, já tinha comprado meia Copacabana, não estava aqui ralando, sofrendo como uma pessoa normal".
Do encontro com Berlusconi, Daniele guarda boas impressões. Diz que apesar de parecer uma pessoa intocável, na verdade, o primeiro-ministro é "super simples, humilde". "(Berlusconi) É uma pessoa supernormal, tranquila, simpático, gosta de cantar, contar piada. Não é esse maníaco que as pessoas disseram que fazia isso ou aquilo na casa dele. Eu nunca vi uma situação desse tipo", disse. "Naquele dia ele brincou, disse que gosta muito do Brasil, da noite do Brasil também; ele adora, foi várias vezes".
A modelo diz que a exposição de seu nome em um escândalo que tem tomado as manchetes do jornais de todo o mundo é negativa, mas não chega a trazer prejuízo profissional. "Tem que esperar a poeira baixar para tomar as medidas cabíveis porque não tem prova de nada, não estou sendo incriminada ou sendo culpada como foi o Lele, como foi o Emílio, como foi a Nicole Minetti, que foram acusados de coisas mais pesadas (...) Eu não tive problemas, agora, as pessoas que eu conheço, sim".
Daniele saiu do Brasil há quase uma década, quando ainda tinha 17 anos, para trabalhar na Itália, a convite de uma agente de Milão que passou pelo Rio de Janeiro. Nos primeiros anos, passou também por Inglaterra e Turquia. Entre seus trabalhos, destaca um comercial de refrigerante com Pelé, em 2002. "Vim para Europa contrariando a vontade do meu pai", conta, e lembra que chegou a passar fome nos primeiros anos em que esteve na Itália. "Era frio, não tinha condições de comprar roupa, passei fome, foi bem difícil".