O ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva disse nesta quarta-feira que tem "discordância política e ideológica" com o líder da Líbia, Muammar Kadafi. Lula não descartou, porém, contribuir para solucionar a crise líbia. "É muito difícil eu falar, porque ninguém me chamou. Não sei se ninguém quer", disse o ex-presidente, em Washington, onde participou de um evento promovido pela Microsoft.

"Se alguém, a minha presidente ou alguém, achasse necessário, e falasse: ''Bom, o Lula pode contribuir'', eu contribuiria tranquilamente", afirmou. Lula citou as discordâncias com Kadafi ao ser questionado por repórteres sobre sua relação com o líder líbio. Durante seu governo, Lula manteve uma relação cordial com Kadafi. Em 2003, o então presidente foi recebido em Trípoli pelo coronel, em uma viagem que provocou polêmica no Brasil.

O líder líbio, que enfrenta uma revolta popular, vem sofrendo crescente pressão da comunidade internacional para deixar o poder. Forças contrárias a seu governo já dominam parte do País. No mês passado, o Conselho de Segurança da ONU autorizou uma ação militar na Líbia, para implementar uma zona de exclusão aérea e proteger a população civil de ataques por parte das forças do governo.

Exemplo
A crise na Líbia faz parte de uma onda de revoltas populares em vários países árabes e muçulmanos do norte da África e do Oriente Médio. Segundo Lula, o avanço da democracia na América Latina é um exemplo para o Oriente Médio. "Tem poucos lugares no mundo exercitando a democracia como nós estamos exercitando na América Latina", disse Lula, a uma plateia de mais de cem pessoas presentes no Fórum de Líderes do Setor Público da América Latina e Caribe.

O ex-presidente lembrou que no mês passado, quando esteve em Doha, no Catar, em um evento promovido pela rede de TV Al-Jazeera para discutir a transição no Oriente Médio e democracia, pôde se encontrar com jovens de vários países da região. "Me encontrei com jovens da Tunísia, da Líbia, do Egito, do Bahrein, e fizemos um debate sobre democracia. Eu dizia para eles que toda vez que você tem um dirigente que começa a achar que é insubstituível, que é imprescindível, você está começando a ter o surgimento de uma pessoa pouco democrática, ou, eu diria até, de um pequeno ditador".

"A América do Sul tem dado um exemplo extraordinário", afirmou o ex-presidente. "Espero que o Oriente Médio consiga o mesmo padrão de democracia que nós estamos alcançando na nossa querida América Latina".