Sair caminhando e bebendo de bar em bar, cantando e dançando ao som de sambas históricos na manhã da segunda-feira de carnaval, é tradição desde 1991 em Quatis, cidade no interior do Rio de Janeiro. Foi há 20 anos que cinco amigos criaram a chamada “Caminhada Alcoológica”, que chegou a reunir mais de 30 mil foliões nos anos de 2008 e 2009, segundo a prefeitura, na cidade com pouco mais de 12 mil habitantes.
Mas o que era brincadeira virou problema sério. Nas últimas edições, houve confusões, assaltos, tiroteios, muito lixo e turistas fazendo xixi nas ruas, segundo relataram moradores ao G1. A comunidade se rebelou contra a invasão de foliões e entregou um abaixo-assinado ao Ministério Público, que pediu para a prefeitura e a Justiça vetarem a “Caminhada Alcoológica”. Desde o ano passado, o evento não tem mais apoio municipal e se esvaziou.
Nesta segunda-feira (7), porém, um grupo de 50 pessoas, remanescentes da Caminhada original, refizeram o trajeto, acompanhados pela reportagem do G1. Foi a primeira vez que a “Caminhada Alcoológica” foi realizada à tarde – começou às 14h. E também foi a primeira vez, em 20 anos, que não fazia sol durante o percurso, contaram os criadores.
O G1 encontrou por acaso quatro fundadores da Caminhada na casa de um deles, na Avenida Faustino Pinheiro, no centro da cidade, que virou uma espécie de concentração dos foliões. “Vamos resistir. A Caminhada Alcoológica completa 20 anos em 2011 e não vamos deixar ela acabar”, disse o contador Julio Cesar Cervere, de 70 anos, um dos criadores do bloco.
“O prefeito não quer apoiar porque nossa ideia original foi mudando ao longo do tempo, vinha muita gente de fora da cidade, o que prejudicava a ordem pública. Mas a Caminhada valoriza o respeito, buscamos difundir o carnaval entre todos, transmitir a felicidade e a alegria para a população”, acrescentou ele.
Cervere contou como foi que a tradição começou. “Éramos em cinco amigos. Três foram caminhando até um bar onde estavam os outros dois na segunda-feira de carnaval de 1991. Cada um pagou duas cervejas. Bebemos 16 naquele bar. A 17ª garrafa veio quente e decidimos ir para o bar seguinte. No segundo bar, bebemos mais 34, e pulamos para o terceiro bar. Aí, a gente já perdeu a conta”, brinca ele.
Mesmo com a proibição da prefeitura, Cervere e outros três criadores da Caminhada – o comerciante Marco Antonio Farjado Rosa, de 50 anos, Fábio Moreira Leite e José de Alves Neto – reuniram amigos e sambistas da cidade para refazer nesta segunda-feira o trajeto. Animados, e tomando uma latinha de cerveja atrás da outra, o grupo caminhou por toda Quatis com muito samba no pé.
“Começamos a beber às 9h e vamos até o dia escurecer. É tradição, é festa. Queremos levar o carnaval para todos”, diz Rosa.
Brincadeira divide Quatis
A questão é polêmica em Quatis e não há consenso entre os moradores sobre se a decisão da prefeitura beneficiou ou não a cidade. O G1 ouviu durante todo o dia mais de 30 moradores sobre a suspensão da Caminhada. Enquanto parte da população comemora a folia “pacífica”, os comerciantes reclamam de que há falta de investimento no turismo.
“No carnaval de 2009 eu vendi mais de 400 caixas de cerveja, porque recebemos muitos turistas para a Caminhada. Neste ano, não devo passar de 130 engradados”, reclamou o proprietário Claudinei Edson Matias, proprietário de um bar na Avenida Nossa Senhora das Rosas, em frente à Igreja da Matriz, de onde historicamente partia a Caminhada. “A cidade lucrava com aluguéis de casas, apartamentos, serviços de táxi. Agora não tem mais nada disso. Está tudo calmo”, diz.
Presidente da associação de funcionários públicos do município, Leonel Pereira Gomes disse que o povo comemorou a proibição à Caminhada. “A cidade ficava uma zoeira. Os homens faziam xixi na rua, na frente da minha mulher, e eu não podia falar nada. Tinha mulher de topless, criança junto com adultos bebendo. Agora temos um carnaval tradicional, com blocos normais, sem aquela confusão”, defendeu ele.
A comerciante Cleia Campbell é proprietária de um bar próximo à praça central há 28 anos. Diz que, com a “Caminhada Alcoológica”, “lucrava mais de 1.000% a mais do que no carnaval normal”. Contudo, ela defende o fim da folia. “Estamos com um carnaval mais família agora, não tem preço que pague a paz de viver bem. Aquela festa tinha virado o fim de mundo. Tinha gente fazendo sexo na rua, mulheres de topless, crianças bebendo cerveja. A cidade cheirava xixi. Agora temos uma Quatis decente”, defendeu ela.
Os criadores da Caminhada rebatem as críticas. “Nossa Caminhada tradicional sempre foi tranquila. Quem fazia bagunça eram os turistas que vinham para as festas à noite, que não tem nada a ver conosco”, rebateu Júlio Cervere.
Através da sua assessoria de imprensa, a Prefeitura de Quatis informou que a cidade não tem condições de infraestrutura para suportar o número de turistas que recebia com as edições da Caminhada e que, após “clamor” da população, decidiu “suspender o apoio e a divulgação da festa e a Caminhada Alcoológica não acontece mais”. A prefeitura diz ainda que “não pode impedir” que o bloco saia nas ruas, mas que o objetivo agora é “o resgate da tradição e da festa para a família”.