A Irmandade Muçulmana, principal grupo organizado de oposição no Egito, rejeitou nesta segunda-feira uma reforma ministerial e pediu o afastamento de ministros que tenham sido indicados pelo líder deposto Hosni Mubarak.
Alguns oponentes de Mubarak foram incluídos no gabinete anunciado na noite de domingo pela junta militar que controla o Egito depois da rebelião popular que encerrou 30 anos do governo de Mubarak. Mas as pastas da Defesa, Relações Exteriores, Interior e Finanças continuaram nas mãos de ministros ligados ao antigo regime.
"Ninguém nos ofereceu nenhum cargo, e se tivessem oferecido teríamos rejeitado, porque... o público exige que este governo saia, já que é parte do antigo regime", disse Essam El Arian, dirigente da Irmandade Muçulmana, que era proibida no governo Mubarak. "Queremos um novo governo tecnocrata, sem conexão com a antiga era."
A Irmandade, que diz defender uma democracia com princípios islâmicos, está representada num comitê que prepara emendas constitucionais e num conselho de "defesa da revolução", e deve se registrar como partido político assim que as novas regras permitirem.
Temendo ser reprimida, a Irmandade adotou uma postura cautelosa no início da rebelião contra Mubarak, e pouco a pouco assumiu um papel mais proeminente. Mas o grupo — visto com preocupação pelos EUA e outros governos ocidentais — nega ter a intenção de apresentar candidato a presidente ou fazer maioria no Parlamento.
Uma grande incógnita no cenário político egípcio é o papel que os militares reservarão para si. Na sexta-feira, uma gigantesca passeata comemorou a queda de Mubarak, mas também lembrou aos militares que as manifestações populares poderão recomeçar se os generais renegarem as promessas de democratização do país.
Na segunda-feira, as Forças Armadas anunciaram uma anistia para armas roubadas durante a revolução, e o primeiro-ministro Ahmed Shafiq ordenou que ruas sejam rebatizadas em homenagem a alguns dos 356 "mártires" da revolta. No domingo, as autoridades haviam anunciado a libertação de 108 presos políticos.
A reforma ministerial de domingo trouxe para o gabinete algumas caras novas, inclusive três políticos de partidos legalizados da oposição, o que é uma notável mudança no Egito, onde apenas quatro semanas atrás os grupos contrários ao regime eram perseguidos, fragmentados e enfraquecidos.
Os novos líderes militares do país, que assumiram o poder após 18 dias de protestos, disseram que as mudanças na Constituição que viabilizam as eleições em seis meses deveriam estar prontas em breve, e que as leis de emergência seriam suspensas antes da votação.