Ainda à espera de recursos do governo estadual, municípios do leste de Minas Gerais devastados pelas chuvas de 2010 tentam se reerguer com ajuda de voluntários e doações. Sem dinheiro em caixa, não há como realizar obras emergenciais, como a recuperação de pontes, estradas e escolas.
Um exemplo de município que decretou situação de emergência para agilizar o envio de recursos foi Entre Folhas, no Vale do Rio Doce. Em dezembro, o lugar que abriga pouco mais de 5.000 habitantes foi castigado por um temporal, na madrugada do Natal. Em pouco mais de três horas, choveu cerca de 150 mm, quase duas vezes o esperado para o mês. Casas foram destruídas e estabelecimentos comerciais, inundados. A administração local encaminhou solicitação de recursos ao governo estadual, por meio do Avadan (Relatório de Avaliação de Danos), mas ainda aguarda, sem dada estabelecida, a liberação do dinheiro. Na mesma situação se encontram os municípios de Inhapim, Vargem Alegre, Itanhomi e Governador Valadares, também afetados pelas chuvas em dezembro.
A situação reflete a lógica da gestão pública brasileira, que gasta mais em reparos do que na prevenção. No ano passado, foram investidos em Minas Gerais R$ 85,9 milhões em ações pós chuva, oito vezes mais do que em planos de prevenção a tragédias (R$ 10,3 milhões).
Em Inhapim, questões burocráticas atrasaram a liberação de R$ 240 mil para a reforma de oito pontes e reconstrução de outras seis. A cidade, de 24 mil habitantes, foi inundada pelo rio Caratinga no dia 26 de dezembro. Cerca de cem famílias tiveram que deixar suas casas e buscar ajuda com parentes e amigos. Cerca de 1.100 imóveis precisam de reparos. A Coordenadora da Defesa Civil Municipal, Arlete Alvarenga, espera que a ajuda financeira seja estabelecida por meio de emenda parlamentar.
Em Itanhomi, a 60 km de Governador Valadares, os prejuízos com as chuvas chegam a R$ 3 milhões, mas ainda não chegou nenhum centavo de ajuda. No fim do ano passado, o município decretou situação de emergência. Foram quatro fortes temporais, um em novembro e outros três em dezembro, que deixaram 40 pessoas desalojadas e 30 desabrigadas. Mais de 400 km de estradas na zona rural e rodovias de acesso ao município precisam ser recuperadas. O coordenador da Defesa Civil local, José Pereira de Souza, disse que sem ajuda do Estado é impossível fazer os reparos.
Em Entre Folhas a situação é ainda mais grave. O Executivo aguarda a liberação de recursos para iniciar as obras de recuperação das pontes e de 78 km de estradas na zona rural. Somente para a reforma de casas danificadas, a prefeitura calcula gastos de R$ 300 mil. O controlador interno do município, Flaviano Silva, contou que não há dinheiro para a obra.
- Com as casas que vamos precisar construir teremos que gastar cerca de R$ 150 mil. Não recebemos nada para fazer a obra.
Enquanto isso, os moradores se agarram a ajudas humanitárias. Armênia Guerra, 34 anos, dorme em colchões que recebeu da prefeitura. Ela conta que todos os móveis da casa, onde vive com o marido e duas filhas, foram carregados pela enxurrada.
- As paredes estão trincadas. Tenho medo de ficar aqui, mas não tenho para onde ir.
Já em Governador Valadares, os prejuízos com o período chuvoso somam R$ 2 milhões. Por enquanto, o município recebeu ajuda de donativos entregues pela Defesa Civil Estadual (Cedec). Segundo Gilson de Souza, da Defesa Civil Municipal, os recursos podem demorar até meses para serem liberados. A Cedec informou que o repasse das verbas depende de análise do Ministério da Integração Nacional.