Entre chuvaradas tropicais no hemisfério Sul e nevascas homéricas no norte, 2010 se encaminhava para seu final quando apontaram na curva o WikiLeaks e seu emblemático dirigente, o australiano Julian Assange.

Qual hemorragia digital, o site, que desde 2006 abriga documentos confidenciais e denúncias de ações irregulares de governos e empresas, começou a publicar milhares de despachos secretos da diplomacia norte-americana e colocou em polvorosa Washington, seus aliados e até adversários, para não falar de companhias financeiras, petrolíferas e farmacêuticas.

Ao chacoalhar o verniz de suposta elegância com que são conduzidos os negócios diplomáticos, um punhado de ativistas armado de computadores e linhas de comunicação globais mostrou que, definitivamente, a era informata não apenas decretou o fim da privacidade dos indivíduos, que se revelam nas redes sociais, mas também é capaz de expor os detalhes mais recônditos (e, supostamente, protegidos) da ação de governos e corporações.

A internet está aberta para todos, por mais controles que se lhe tentem impor. Pode ser cenário do mais tosco besteirol e palco para as mais grandiosas ações --como é o caso do episódio WikiLeaks, eleito por jurados escolhidos pela Folha o acontecimento do ano, sendo Assange a personalidade estrangeira do ano.