Durante as últimas duas semanas, os brasileiros acompanharam ao vivo as cenas de violência no Rio de Janeiro – e a tentativa de combatê-la. Numa época em que crimes são televisionados, a sensação de poder ser a próxima vítima assusta ainda mais a população. Pesquisa realizada em maio e divulgada nesta quinta-feira pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) confirma: nove em cada dez brasileiros têm medo de serem assassinados, assaltados à mão armada ou terem a casa arrombada.

O levantamento foi feito presencialmente com 2.770 pessoas de todo o país que responderam a um questionário sobre sensação de insegurança e confiança na polícia. Entre os tipos de violência citados, o homicídio é o que mais amedronta – 90,4% disseram ter pouco ou muito medo da morte violenta. Em segundo lugar, ficou o assalto à mão armada, que também representa risco à integridade física. A porcentagem total é a mesma dos assassinatos – 90,4% - mas o número de pessoas que têm muito medo é menor.

De acordo com a psicanalista e coordenadora da clínica da violência da Pontifica Universidade Católica do Rio de Janeiro (PUC-Rio), Júnia de Vilhena, a cultura do medo prevalece na sociedade moderna. “Temos medo de tudo, de pegar doença, da comida que comemos, da roupa que vestimos. Há toda uma regulação em cima do nosso corpo”, analisa.

Para a professora, além dos índices reais de violência, essa sensação é causada pela maior divulgação dos crimes. “Antigamente havia muita gente com claustrofobia – o medo de lugares fechados. Agora, cada vez mais, as pessoas têm ágorafobia – o medo de espaços abertos. Elas vivem em condomínios fechados, cercadas, preferem ambientes como os shoppings, que transmitem a ilusão da segurança, sem as coisas consideradas desagradáveis da cidade.”