A participação de negros na política tomou novos rumos desde que os Estados Unidos elegeram Barack Obama para ocupar a presidência do país. No Brasil o assunto passou a ser discutido por conta do Estatuto da Igualdade Racial, projeto apresentado pelo senador Paulo Paim (PT/RS) em 2003 e sancionado pelo presidente Lula em julho deste ano.
No entanto, o Estatuto sofreu várias modificações e acabou sendo aprovado sem um artigo que acrescentava à Lei Eleitoral a exigência de reserva de 10% das vagas de cada partido ou coligação para candidatos representantes da população negra e ainda, sem cotas em universidades e empresas, tendo como objetivo promover políticas públicas de combate à discriminação e igualdade de oportunidade.
Em Alagoas a participação de negros na política continua tímida, sendo que na Assembleia Legislativa há o deputado estadual, Alberto Sexta-feira (PSB) e na Câmara de veradores de Maceió, Fátima Santiago (PP) que também representa as mulheres. Na última eleição, o candidato ao governo Tony Cloves (PCB) despontou do município de Delmiro Gouveia e ganhou notoriedade, ficando conhecido como o Obama do Sertão.
Para Fátima Santiago disse que a presença negra na política ainda é rudimentar e existe uma necessidade de que o espaço seja ampliado. Ela lembrou que isso acontece porque a condição social da população negra é inferior historicamente, destacando que em relação à mulher isso é ainda mais complicado. No entanto, a vereadora deixou claro que não pode existir um apartheid .
“Temos poucos representantes na política alagoana porque a formação acadêmica influi muito. Já a discriminação em relação à mulher independe de etnia. Mas, as minorias têm tido relevância nos partidos, um exemplo disso são as pessoas com deficiência que foram eleitas para cargos públicos. Cabe a cada uma sentir a necessidade de eleger seu representante, mas esse é um processo que leva tempo. Ainda estamos lutando para que a abolição se torne real”, lembrou.
De acordo com Tony Cloves a ideia de sua candidatura começou porque o partido queria lançar ao governo alguém que fosse do interior do Estado, já que todos os demais que disputavam a vaga eram da capital. Para ele, o gande problema é a falta de espaço para as minorias, entre elas negros e homossexuais, afirmando ainda, que essa questão também está relacionada ao poder econômico.
“Fui o primeiro negro a se candidatar para disputar o governo do Estado, mas até então eu não tinha percebido isso. Foram os internautas que começaram a me chamar de Obama do Sertão, após eu participar do primeiro debate e dizer que se um torneiro mecânico e um negro podiam chegar à presidência eu também tinha chances. Nosso estado tem uma grande distorção em termos de distribuição de renda e só pessoas de famílias influentes entram na política”, destacou.
Tony Cloves lembrou que a maioria da população pobre do Estado é negra e os que têm um poder aquisito melhor se sobressaiam. “O preconceito existe, mas a mídia já vem dando destaque às minorias, porque estamos aparecendo mais no cenário político. Isso é um começo. Há muitos analfabetos e aqueles que não têm empregos, por isso quem tem o poder econômico acaba sendo visto como uma esperança”, afirmou.
Histórico
Ao longo da história os negros tiveram papel de destaque em todas as revoluções brasileiras, como na Conjuração baiana, que propunha uma nova ordem para o Brasil Colônia: República, igualdade, fraternidade, liberdade, abolição dos escravos, comércio livre entre todos os povos, um salário mais elevado para os soldados, promoção para os oficiais, colaboração entre as classes, fundação de uma igreja brasileira desligada da Cúria romana, o que favorecia as classes populares, negros e escravos.
Na lista dos implicados e registrados nos Autos da Devassa da Conjuração Baiana, encontra-se um número significativo de pessoas identificadas como pardos, pardos livres, pardos escravos, escravos, pardos alfaiates e pardos forros.
No período regencial a cena política continuou conturbada. Várias revoltas eclodiram pelo país. Eram províncias querendo maior autonomia, lutas para a implementação da República, insatisfação de proprietários rurais com o governo regencial, levantes populares, além de divergências entre portugueses e brasileiros.
Na Balaiada (Bahia) e na Cabanagem (Pará), a participação de negros foi importante não só em termos numéricos como também em termos de liderança. Na Balaiada, por exemplo, dois dos seus líderes negros vão ter importância fundamental: Raimundo Gomes e Cosme Bento das Chagas.
No final do século XIX e início do XX, outros personagens negros marcaram o pensamento brasileiro. Entre eles: Tobias Barreto, jurista, poeta e filósofo; os filósofos Tito Lívio de Castro e Farias Brito; o romancista Teixeira e Souza; a poetisa Auta de Souza; o psiquiatra Juliano Moreira; o teólogo e poeta Dom Silvério Gomes Pimenta; a romancista Maria Firma dos Reis; e Machado de Assis; entre outros.
Na República Velha e na Nova, o negro continuou sem o acesso pleno à cidadania e sem poder político representativo. Eram discriminados no trabalho e não controlavam o acesso às instituições. Em 1919, houve uma greve geral na Cervejaria Brahma feita pelos condutores de veículos, todos os portugueses que lá trabalhavam ou os brancos de pele foram readmitidos quando finda a reivindicação pelos funcionários. Já com negros, muitos foram demitidos e outros tantos continuaram a receber salário inferior aos demais.
Para a Assembléia Constituinte de 1934 foi eleita deputada classista a datilógrafa Almerinda Gama, operária negra do Rio de Janeiro. Ainda neste ano de 1934, foi eleita também a primeira deputada estadual negra, na ocasião das primeiras eleições em que as mulheres brasileiras puderam votar e serem votadas. Foi uma resposta ao vigoroso movimento feminismo brasileiro, que bravamente havia lutado pelo direito ao voto, Antonieta de Barros foi eleita pelo Partido Liberal Catarinense para a Assembléia Legislativa de Santa Catarina, ela era também jornalista, escritora e educadora.
Em 1975, na segunda onda feminista no Brasil que impulsiona candidaturas de negros e a criação de associações de negros e negras. Porém, uma que se deve ressaltar é Benedita da Silva, a primeira negra a atingir os mais altos cargos da história do Brasil: vereadora; deputada federal constituinte, reeleita para um segundo mandato em 1990; senadora, em 1994, com mais de 2 milhões e 400 mil votos; vice-governadora no pleito de 1998; governadora, em 2002; e autora do projeto que inscreveu Zumbi dos Palmares no panteão dos heróis nacionais.
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