Neste domingo (31), o Brasil escolherá o futuro presidente da República entre o 13 da petista Dilma Rousseff e o 45 do tucano José Serra.

Mas entre os 472 mil eleitores do Acre, na região Norte, a maior expectativa, ao final da eleição, será para conhecer o vencedor, no Estado, de uma disputa duríssima entre o 55, o sim, e o 77, o não.

Explica-se: além de escolher entre Dilma e Serra, os acrianos irão decidir, num referendo, se querem ou não manter a lei federal que, em 2008, adiantou em uma hora o fuso horário do Estado, passando-o de duas para apenas uma hora a menos do que o de Brasília e dos Estados do Nordeste, do Sudeste e do Sul do país.

Pela história e a geografia, o Brasil tinha até recentemente quatro fusos.

O primeiro inclui Fernando de Noronha e as ilhas do oceano Atlântico. Está uma hora à frente de Brasília.

O segundo, o horário oficial do país, envolve Brasília e o Distrito Federal, Goiás, os Estados do Nordeste, do Sudeste, do Sul, o leste do Estado do Pará e o Amapá.

O terceiro é o dos Estados de Mato Grosso e Mato Grosso do Sul, o oeste do Pará, a maior parte do Amazonas, Roraima e Rondônia. Está uma hora atrás do horário de Brasília.

O quarto envolvia o Acre e a ponta do extremo oeste do Estado do Amazonas.

Historicamente, este quarto fuso, o do Acre, sempre esteve duas horas menos em relação ao horário de Brasília e ao dos principais estados das regiões Nordeste, Sudeste e Sul.


Agora, no período de horário de verão, a diferença subia para três horas.

Em abril de 2008, o presidente Lula sancionou um projeto, defendido no Congresso Nacional pelo senador Tião Viana (PT), alterando o fuso oficial do Estado do Acre de duas para apenas uma hora a menos do que o horário de Brasília. A mudança passou a valer no dia 24 de junho daquele mesmo ano e também unificou os fusos do Pará (o mesmo de Brasília) e do Amazonas (uma hora a menos).

Pois bem: além de escolher entre Dilma e Serra, os acrianos, neste domingo (31), irão decidir se querem que seja mantido o horário atual, com uma hora a menos em relação Brasília (atualmente, por causa do horário de verão, está em duas), ou a volta do fuso histórico, com duas horas atrás do adotado na capital federal e nos Estados mais ricos e populosos do país.
O eleitor vai responder à seguinte pergunta no referendo: "você é a favor da recente alteração do horário legal promovida no seu Estado?".

Quem defende a mudança do projeto sancionado por Lula em 2008 vai digitar o sim, que, na urna, será o número 55.

Quem não concordou com a mudança vai digitar o não, que, na urna, será o número 77.


Embora pareça, a questão está muito longe de ser simples.

Mudar horário não é apenas mexer no relógio. Longe disso.

Em torno dela orbitam incontáveis interesses e rotinas financeiras, pessoais, profissionais, culturais, políticas e ambientais.

Tião Viana (eleito governador do Acre no último dia 3 de outubro), os comerciantes locais, os funcionários públicos e boa parte dos trabalhadores das áreas mais urbanizadas acreditam que o novo horário aproxima mais o Acre do restante do país. E gera mais renda e emprego.


Para Tião Viana, as máquinas públicas precisam funcionar em horários próximos:

- No horário de verão, um funcionário público ou privado que precisa se comunicar com uma pessoa em Brasília, no Rio ou em São Paulo precisa estar de pé, ao lado do telefone, do fax ou do computador, às cinco da manhã. Isso inviabiliza muita coisa.

O presidente da Associação Comercial, Industrial, de Serviços e Agrícola do Acre, a Acisa, é outro defensor do 55, o sim:

- Se tivermos mais luz solar no horário de trabalho, o trabalhador poderá terminar sua primeira jornada e fazer um complemento, um reforço.

Do outro lado, trabalhadores, formadores de opinião e professores organizados, além de parte dos servidores públicos, defendem a volta do fuso de duas horas (três no horário de verão).

Eles acusam o governador eleito de ter alterado a rotina dos habitantes do Estado sem qualquer consulta à população, para beneficiar a Rede Globo.

Altino Machado, titular de um influente blog jornalístico no Estado, é um dos mais ardorosos defensores do 77, o não.

- A Globo não sabe como resolver um problemão sério com sua programação na região amazônica. A novela global que o Sul e o Sudeste assistem às nove da noite entra no ar, aqui e na ponta oeste do Amazonas, às sete. No horário de verão, às seis. Com um monte de cenas proibidas para estes horários. Como a lei obriga que se cumpra faixa de censura etária em todos os Estados, fica complicado para eles administrarem tudo isso com gravações ou novos aluguéis de satélite, alguns ao custo anual de mais de R$ 8 milhões. Então, fica mais fácil pressionar e se entender com as autoridades para mudar o horário.

Machado dá mais detalhes.

- Como estamos próximos da linha do Equador, as manhãs e noites são bem delineadas. Amanhece muito próximo das seis, anoitece muito próximo das seis da noite. Aí vem a turma e adianta o horário uma hora na marra. Resultado: quem acordava no interior às cinco, que já era escuro, agora levanta no breu total. Vai pegar uma barca no breu total. A criança vai atravessar rio e matas no escuro absoluto. As pessoas ficam em dúvida se mudam ou não o horário de seus costumes religiosos ligados ao horário natural. Tudo isso é um absurdo total.

Em entrevista a Machado, a maior estrela do Estado no momento, a verde Marina Silva, que conquistou quase 20 milhões de votos no primeiro turno da disputa presidencial, também se mostrou a favor da volta do fuso anterior.
- Vou votar no 77. Compreendo os que querem a mudança do fuso horário por uma série de razões práticas. Não faço demonização disso, pois existem argumentos sérios, mas sou pela volta do nosso horário antigo, de duas horas a menos em relação a Brasília. A comunidade é afetada pela mudança da hora. Imaginem as crianças que moram longe, na zona rural ou nos seringais, que necessitam acordar no escuro, se deslocar em canoas para chegar às escolas? Além disso, há aspectos culturais muito importantes. A diferença de duas horas tem realmente a ver com a posição que o Acre historicamente ocupa.

Hoje a luta entre 55 e 77 terá um vencedor no Acre.

Para os acrianos, às cinco da tarde.

No horário de Brasília, às sete da noite.