A outrora pacata Mara Rosa perdeu a tranquilidade. Epicentro do terremoto de 5 pontos na escala Richter, que levou pânico a boa parte de Goiás e Distrito Federal no fim da tarde de sexta-feira, a pequena cidade do norte goiano acordou assustada ontem. Os 12 mil moradores buscavam entender o que havia ocorrido e temiam novo tremor de terra. No momento do abalo sísmico, muitos tentaram se agarrar em mesas e armários. Alguns caíram e tiveram pequenos ferimentos. Comerciantes perderam produtos que se espatifaram na queda das prateleiras.
No bairro Setor Oeste, por exemplo, garrafas de bebidas quebraram ao cair nos corredores do mercado Alvorada, uma dos maiores da cidade. Na mesma localidade, a caixa d’água de uma casa rachou. O estrondo ainda causou várias rachaduras pelos cômodos e deslocamento de telhas. “Foi horrível. Parecia que eu não tinha mais chão porque tudo começou a balançar. Veio uma coisa estranha de baixo para cima e comecei a escorregar. Nessa hora, só tive a reação de correr”, contou a funcionária pública Tereza de Sousa Barbosa, 60 anos, dona da residência.
Quem estava no centro de Mara Rosa não sabia se ficava dentro ou fora de casa. Próximo à praça, ponto de encontro da população, um poste de iluminação de madeira balançou por alguns segundos. “Quando olhei para o poste, pensei que ele fosse cair. Se isso tivesse ocorrido, seria uma tragédia”, comentou a dentista Ligia Facundo, 33. Ela estava no consultório quando a terra tremeu e os prédios foram evacuados. Ninguém mais queria voltar para trabalhar com medo de novos tremores. “A sensação é de impotência. Pensava que fosse ver isso só em filme. É como se estivéssemos correndo em cima de uma cama elástica”, descreveu uma amiga dela, a servidora pública Oneide Mendes de Souza, 41.
Na casa de Maria do Carmo Silva, 42, o susto foi ainda maior. Ela estava deitada no chão, assistindo um programa na televisão, quando viu os móveis balançarem. O aparelho de som e a televisão caíram no chão e por pouco não a atingiu. Do lado de fora estava o irmão dela, Altamir Alves da Silva, 53 anos. Ele não fala e tem pouco equilíbrio devido um derrame que teve há cinco anos. “Quando olhei para, trás ele tinha caído. Foi um desespero, porque eu tinha que segurar a TV para ela não explodir e ao mesmo tempo acudir ele”, relembrou a dona de casa.
Ontem, ela circulava pelas ruas de bicicleta e dava notícia de onde tinha estragos, causados pelo terremoto. Aliás, os burburinhos começaram nas primeiras horas do dia. Mas teve quem perdeu o sono. O comentário que se espalhou era que haveria um novo terremoto durante a madrugada, por volta das 3h. Teve quem quisesse estar acordado e não ser pego de surpresa. “Minha prima ficou me ligando de madrugada, com medo de tudo cair”, contou Ligia Facundo. O abalo não ocorreu. Mas especialistas não descartam a possibilidade de novos tremores.
O abalo sísmico não foi novidade para o apicultor Carlos Eduardo Cavalcante, 63 anos. Morador de Monte Rosa desde 1967, ele conta que já houve outros tremores anos atrás. O primeiro teria sido em 1962. “Esse terremoto foi o pior de todos e vai ficar marcado na história da cidade”, afirmou.
Mineração
Mara Rosa fica a 330km de Brasília e é uma região rica em minério. Por muitos anos, garimpeiros norte-americanos, canadenses e franceses exploraram a extração de ouro no local. Alguns moradores acreditam que a garimpagem possa ter influenciado nos abalos. Segundo o geólogo e morador da cidade Augusto Raiol, isso não passa de especulação. O tremor seria um reflexo do deslocamento natural das placas tectônicas. “Há um conjunto de falhas nas placas de milhões de anos nessa região e não significa que não tenham ocorrido tremores antes. A diferença é a intensidade”, explicou.
A exploração do minério em Mara Rosa esteve ativa até a década de 1980. Segundo o produtor rural e ex-prefeito Oton Alves Aguiar, 59, a área era alvo de grandes garimpos, que deixaram de procurar ouro em razão da baixa cotação do dólar. “Aqui exige tecnologia avançada para extrarir ouro e, depois de muito explorada, a atividade passou a não ser mais tão atraente”, explicou.
Turismo
Em pelo menos dois pontos onde eram localizadas as mineradoras, surgiram dois grandes lagos naturais. Um deles fica a 12km do centro da cidade e virou ponto turístico. O lugar chamado Lago Azul é conhecido pela água limpa e de cor azulada, o que atrai gente de todo o mundo. Ontem, um casal de moradores de Portugal aproveitou o calor de mais de 30ºC para relaxar na água cristalina. “É uma sensação inexplicável”, disse a cozinheira Adeilde Cândida Ramos, 42 anos. “Isso aqui é um espetáculo”, emendou o churrasqueiro Raimundo Marcos Ramos, 50.
Da exploração, as máquinas atingiram o lençol freático e a água aflorou tanto que a área é usada para treinamento de mergulhadores de todo o país em razão da profundidade, que chega a 75 metros. Ontem à tarde, 40 deles vieram de Brasília. “A visibilidade é maravilhosa e acaba também sendo uma área para a pessoa relaxar”, disse o mergulhador de Goiânia, Oscar Willian Catoira, 28 anos.