A psicóloga que atendeu a menina Joanna Marcenal Marins, 5, morta no dia 13 de agosto, negou nesta sexta-feira que tenha dado orientações ao pai da criança, serventuário da Justiça André Marins, para que prendesse as mãos da filha com fita crepe. Lilian Araújo Paiva afirmou, em entrevista ao programa "Mais Você", da TV Globo, que orientou apenas o uso de luvas de proteção.

"De forma nenhuma eu falei que ele amarrasse as mãos, ou que as mãos tivessem que ficar presas da forma como ele mostrou ali. A questão da luvinha, ele me perguntou se eu poderia fazer durante a noite, enquanto ela estivesse dormindo, e eu falei que se ela estava se machucando, pra ele colocar a luvinha. Mas de forma nenhuma de amarrar a criança. Nunca orientaria isso"

Ontem, Marins negou as acusações de maus-tratos e disse que prendeu as mãos de Joanna para evitar que a menina se machucasse --cerca de 30 dias após ir morar com o pai, ela começou a ficar muito agitada, especialmente durante a noite, o que ele atribui a uma meningite até então não diagnosticada. Laudo do IML (Instituto Médico Legal) sobre a morte da menina afirma que ela morreu em decorrência de uma meningite viral.

"Perguntei para a médica o que eu podia fazer para evitar que ela se machucasse enquanto dormia, e ela me orientou a falar com a psicóloga da Joanna pra fazer algo que não fosse muito traumático. A psicóloga me disse pra eu colocar luvas nas mãos delas e prender com uma fita crepe, explicando que era para ela não passar frio."

Paiva disse ainda que atendeu Joanna em cinco ocasiões, e que nas três primeiras consultas a menina estava bem, mas que nas duas últimas estava "debilitada, machucada e doente". Na última consulta, disse a psicóloga, Joanna "realmente se demonstrava triste, também acredito que por toda a história dela de vida, do litígio dos pais, dessa separação abrupta da mãe. Então acredito que ela estivesse triste por isso, mas em momento nenhum ela verbalizou o sentimento dela, o que ela estava sentindo".

INOCÊNCIA

Joanna morreu depois de ficar 26 dias internada em coma. Segundo o laudo do IML, a menina apresentava marcas nas nádegas e manchas roxas em outras partes do corpo, mas o documento foi inconclusivo em relação a isso, sugerindo que as marcas poderiam ter sido causadas por queimaduras de ação térmica ou química. A mãe dela, a médica Cristiane Marcenal Ferraz, acusa Marins de ter maltratado a filha.

Ontem, o pai afirmou que o laudo comprova sua inocência. "O laudo põe fim a qualquer suposição de que minha filha tenha sido vítima de maus-tratos", disse ele, que obteve a guarda provisória de Joanna no fim de maio, por decisão da Justiça. "O IML concluiu que as marcas roxas encontradas nela foram resultado das convulsões, confirmando o que eu já tinha dito, e foi inconclusivo quanto à origem da marca na nádega, que eu já apontei em depoimento."

Segundo Marins, Joanna já foi entregue para ele com uma "vermelhidão" nas nádegas, que teria se agravado porque a menina teve problemas intestinais em decorrência da abstinência de um remédio de uso controlado, o Neuleptil, e precisou usar fraldas, que lhe deram alergia. Ele acusou Cristiane de não ter informado que a criança fazia uso desse remédio.

"Depois vimos que ela tinha juntado ao processo diversas receitas desse remédio, que teria sido indicado porque a Joanna sofria de terror noturno, para convencer a juíza de que ela não deveria ficar comigo", disse ele, que mostrou algumas dessas receitas, datadas de anos anteriores. Para ele, Cristiane omitiu essas informações ao entregar a menina porque teria como objetivo dificultar a adaptação da filha à vida com o pai. Ela diz que a menina tomou o remédio apenas quando bem pequena.

Marins contou ainda ter levado a filha por três vezes ao hospital RioMar, na Barra da Tijuca --na primeira, porque a menina estava com sinusite, e nas outras duas, porque já apresentava agitação. Ela foi inicialmente diagnosticada com terror noturno e medicada, mas não melhorou. Quando retornou ao hospital, foi atendida por um falso médico, Alex Sandro da Cunha Souza, que teve a prisão decretada e está foragido.

"Ele é o acusado de homicídio, mas o poder público não parece estar interessado em prendê-lo, está mais interessado em tentar comprovar coisas que não aconteceram", reclamou. Ele ofereceu uma recompensa de R$ 3.000 por informações que levem à captura do falso médico.

Marins disse ainda que irá processar "todas as pessoas que deflagraram essa campanha caluniosa" contra ele, inclusive a mulher --segundo ele, uma faxineira-- que relatou à polícia ter visto Joanna com as mãos atadas e suja de fezes e urina em um tapete na casa do pai. Segundo ele, ela tinha sido colocada no tapete para não cair da cama e ficou suja por pouco tempo, tendo sido então limpa por ele.

Mãe de Joanna, a médica Cristiane Marcenal Ferraz rebateu a afirmação do pai da menina de que o laudo do IML comprovaria sua inocência.

"O laudo é aterrorizante. O perito diz com todas as letras que a Joanna morreu de meningite herpética por causa das condições sub-humanas e degradantes a que foi submetida", disse. "O delegado chegou a chorar quando leu, de tão horrível".

Segundo Cristiane, o documento também concluiu que a marca nas nádegas da menina foi causada por um "agente físico". "Foi algo que ele usou para queimá-la. Isso a deixou tão imunodeprimida que ela deve ter pego meningite por isso."

A médica citou ainda o fato de a menina não ter tido condições adequadas de higiene como um dos agravantes do seu estado de saúde.

A Folha procurou o delegado responsável pelas investigações ontem, mas ele não quis dar entrevista. A reportagem também não conseguiu acesso ao laudo do IML.