Após 12 anos tocando com o grupo Hurtmold, um dos principais nomes do rock experimental de São Paulo, o guitarrista Mário Cappi resolveu neste ano dar vazão ao seu lado mais "cancioneiro" e o resultado foi o projeto MDM, que acaba de lançar seu primeiro álbum. Mário falou ao Terra sobre o novo grupo.

"Eu tinha umas músicas guardadas já há algum tempo, que eu tinha feito em paralelo com o trabalho com o Hurtmold, mas que não tinham muito a ver com a banda. Não tinha como fazer uma gravação decente delas na época. Mas eu percebi que algumas delas casavam entre si, comecei a entender que elas tinham uma linguagem própria, mais minimalista e cancioneira. Aí fazer o disco foi a consequência natural", explica.

Embora o MDM pareça a princípio mais convencional que o Hurtmold, o guitarrista acha que seu grupo original é menos experimental. "Talvez o Hurtmold seja menos experimental no sentido literal, porque a gente experimenta com os instrumentos, tipo, eu saio da guitarra e vou fazer uma percussão às vezes... mas como o Hurtmold é uma banda, é algo coletivo. O MDM é eu querendo experimentar com minhas ideias. O MDM é mais experimental no sentido sonoro, de pegar a guitarra e colocar um efeito, fazer um barulho de água. Resumindo, fazer o instrumento soar diferente. Mas toda essa experimentação desenboca na música cantada".

Ele explica melhor a diferença entre os dois projetos. "O MDM tem mais vocal que o Hurtmold, e a outra diferença é que no Hurtmold a gente tem que levantar a orelha, ouvir o que o outro tá tocando. No MDM é mais eu comigo mesmo". E diz que tentou explorar os chamados "sons da natureza". "Esse lance surgiu quando eu comecei a brincar com instrumentos de sopro, aprendi a tocar trompete e flauta, e saía uns sons parecidos com canto de passarinho, essas coisas. Comecei a fazer com a guitarra também, colocando uns efeitos, pedais, para fazer barulho de água, é divertido".

Marcelo Camelo foi um dos convidados
No disco ele toca guitarra, violão, trompete, flauta e percussão, e teve que chamar alguns amigos para tocar os outros instrumentos, como o companheiro de Hurtmold Maurício Takara, na bateria, e Marcelo Camelo, que foi chamado para "pirar". "Eu quis chamar uma galera de fora do Hurtmold, porque os caras da banda iam entender na hora o que eu queria, e os outros não tinham muita ideia. Eu queria esse desafio, de começar algo do nada, por isso acabou sendo um verdadeiro experimentalismo. O Marcelo camelo eu chamei pra tocar uma guitarra mais maluca, e ele comprou a ideia. Veio com a ideia de gravar um walkman que ficou muito legal, deu um clima lo fi bacana".

E como todas essas pirações sonoras de estúdio são transportadas para um show ao vivo? "A gente tem que modificar muito, porque no disco tem música com 14 guitarras. A gente usa sampler, mas não dá pra abusar do sampler também. Ao vivo não tem aquela quantidade de elementos do disco, é explorado mais o cantado e a percussão, é mais dinâmico e barulhento, mas não um barulho gratuito. Basicamente, tentamos reinterpretarar música do disco mais simplificado, e as músicas novas da banda. Porque hoje o MDM é realmente uma banda, não é mais só eu", conclui.