Quem vai para Gonçalves, cidade de cerca de 4.200 habitantes no sul de Minas Gerais, a cerca de 200 km de São Paulo, surpreende-se com a cena gastronômica da cidade. Além dos pratos clássicos da culinária mineira, uma nova geração de chefs de cozinha paulistas escolheram a cidade para se aperfeiçoar e inovar, fazendo uma fusão de ingredientes tipicamente brasileiros com técnicas mais elaboradas.

É o caso dos gêmeos Juliano e Fernando Basile, de 19 anos, que moram na cidade há sete anos e já foram premiados em 2010 como revelação na culinária brasileira por um guia especializado. Eles descobriram a cozinha trabalhando em uma pizzaria que o pai abriu na cidade. “Nós lavávamos pilhas de louça na água fria de Gonçalves. Não era tão divertido assim”, lembra Juliano. Porém, os negócios da família se expandiram e, em 2000, foi inaugurado o Le Gourmet, que Juliano definiu como um restaurante “franco-italiano contemporâneo”.

“Nós tínhamos entre 13 e 14 anos e começamos ajudando no salão, trabalhando como garçons. Rapidamente, a gente descobriu que era mais divertido ficar na cozinha”, conta. Aos 15, eles assumiram a cozinha, sob a supervisão do pai. Eles procuraram uma formação em uma escola convencional, mas, como ainda eram muito jovens, eles não foram aceitos em um primeiro momento. Fizeram um curso com um respeitado chef francês em São Paulo e, aos 18 anos, partiram para um curso de cultura e cozinha espanhola, em Sevilha (Espanha).

Depois de fazer estágios em restaurantes famosos, os irmãos voltaram à pacata Gonçalves. Eles dividem a administração e a cozinha do Le Gourmet. Juliano confessa que às vezes dá briga, mas rapidamente eles fazem as pazes. “A gente briga porque um quer dar palpite no molho do outro. Mas a discussão só dura um momento. Depois, fica tudo bem”, afirma.

A intenção dos gêmeos, no entanto, é treinar em Gonçalves e expandir a rede de restaurantes familiar em São Paulo. “Temos o plano de montar um restaurante de cozinha de inovações para até 30 pessoas. Vamos usar ingredientes brasileiros e técnicas franco-espanholas”, diz.

O chef de cozinha paulista Vitor Pompeu, de 24 anos, também se divide entre suas atividades na capital paulista e o restaurante Sauá, em Gonçalves. Na capital, ele estuda e faz compras para o restaurante.

Para o jovem, a cidade mineira é inspiradora. “Nós dizemos que fazemos uma cozinha moderna com toque caipira. O contato com produtores orgânicos, ter o leite direto da vaca, ovos caipiras. Tudo isso é muito inspirador”, afirma.

Entusiasmados com dicas de moradores locais, Vitor e seu sócio, que também é paulista, decidiram montar uma horta orgânica ao lado da pousada Bicho do Mato, onde se localiza o restaurante. “Em São Paulo, nós não tínhamos contato com a terra, que aqui é muito boa. Os habitantes locais nos dão dicas. Nós fomos aprendendo. Uma hora dá certo; outras, não”, reconhece.
Porém, os chefs de cozinhas conseguiram montar a horta com verduras e temperos (como manjericão, salsinha e cebolinha) que são utilizados no restaurante. “Com certeza dá um requinte especial no sabor dos pratos." Refogados da horta e um purê de inhame acompanham, por exemplo, a galinha confitada, servida com geleia de pimenta e molho de alecrim.

Vitor pensa em estudar fora do país, mas quer continuar conciliando suas atividades em São Paulo e na cidade da Serra da Mantiqueira. Como seus colegas, ele tem um projeto de abrir um restaurante na capital paulista, principal centro gastronômico do país. “Vamos ver se eu concretizo a longo prazo”, diz.
A pacata Gonçalves se localiza na Serra da Mantiqueira, no extremo Sul de Minas Gerais. A paisagem é exuberante, repleta de araucárias e cachoeiras. Além das quedas d'água, as trilhas atraem praticantes de esportes de aventura.

A prefeitura estima que há cerca de 1.500 leitos disponíveis nas 40 pousadas da cidade. “Há ofertas de pousadas e hotéis para todos os gostos e bolsos, desde R$ 60 a R$ 600”, diz a secretária de Turismo, Marília Ribeiro de Souza.

A administração municipal estima que 90% dos turistas são de São Paulo (principalmente, da capital, Campinas e Vale do Paraíba). “Vem para Gonçalves o turista que está atrás de sossego. Quem tem esse perfil não se arrepende e acaba voltando”, afirma a secretária de Turismo.