A Embaixada do Irã em Brasília informou nesta segunda-feira (16) que o país não enviará Sakineh Asthiani, condenada à morte por apedrejamento, ao Brasil. O comunicado foi divulgado pouco depois de o presidente iraniano, Mahmoud Ahmadinejad, dizer que a mulher é uma criminosa. O documento chega questionar se a sociedade brasileira quer que o Brasil se transforme num “lugar de criminosos de outros países em seu território”.
Veja a íntegra do comunicado
O documento diz que Sakineh “praticou um crime de homicídio contra seu marido, pelo qual foi processada e presa. No decorrer das audiências no tribunal, foram aprovadas as relações ilícitas extra-conjugais e o adultério com vários homens, que foram cúmplices no assassinato de seu marido. Por essa razão, o crime principal praticado pela cidadã iraniana é de homicídio”.
ONGs de direitos humanos dizem que não havia provas de envolvimento de Sakineh com o assassinato do marido. Ele foi “morto por injeção de uma ampola e choque elétrico durante o banho”, segundo a versão oficial.
Irã segue lei islâmica
Ahmadinejad reafirmou que se trata de uma "criminosa" pelos padrões e pela Justiça local.
- No fim de tudo tem um juiz e os juízes são independentes. Eu conversei com o chefe do Judiciário e ele também não concorda [em enviar Sakineh ao Brasil].
A nota ressalta que o sistema judicial no Irã é baseado na sharia. Segundo a lei islâmica, o adultério é crime e pode ser punido com a morte. Caso não puna os “culpados”, o Irã teme incentivar outros “crimes”, segundo diz a nota da Embaixada.
- Será que esse ato não promoverá e não encorajará criminosos a praticar crimes? (...) Será que a sociedade brasileira e o Brasil tem que ter, no futuro, um lugar dos criminosos de outros países em seu território? Se a concessão do exílio aos criminosos e assassinos tornar-se um hábito para os países, será que isso não prejudicará o papel dos sistemas jurídicos desses países?
O comunicado faz um alerta para as pretensões do Brasil em ser um canal de diálogo com o Irã, com quem se aproximou nos últimos anos - Lula chegou a mediar um polêmico acordo nuclear com Ahmadinejad. A nota diz que “pequenos assuntos [como o caso Sakineh] não podem interferir e prejudicá-las”.
O documento tem vários erros de português e chega a errar o nome do presidente Lula.
Irã culpa Israel e EUA por crise Sakineh
O Irã culpou os "sionistas" (referindo-se ao Estado de Israel) e os Estados Unidos de criar uma “guerra psicológica” em torno libertação de Sakineh com o objetivo de atacar o regime iraniano – Ahmadinejad é um inimigo declarado dos americanos e já falou em acabar com o Estado de Israel.
O comunicado da embaixada insinua que israelenses e americanos querem, por meio dessa campanha, “vingar-se do governo brasileiro por tomar posições soberanas, corajosas e justas, sobretudo do próprio presidente Lula”, fazendo referência à mediação brasileira num acordo nuclear com a Turquia. A ONU não acatou a negociação e impôs sanções ao governo iraniano por causa de seu programa nuclear.
