A mesa "Albany, Nova York e outras aldeias" reuniu o americano William Kennedy e o irlandês Colum McCann neste sábado (7), na Flip. Kennedy dedicou o ciclo de romances de Albany a "todoas as pessoas que odiavam o lugar onde cresceram e depois mudaram de opinião". McCann ganhou projeção internacional com "Deixe o grande mundo girar", vencedor do National Book Award do ano passado - um romance soobre o sentimento de fragilidade que permeia a sociedade americana.

O ponto de partida da narrativa é o episódio real de um equibrista que andou sobre um cabo estendido entre as Torres Gêmeas, em 1974 - ano do trauma de Watergate. "Tomei conhecimento desse equilibrista lendo 'The red notebook', de Paul Auster", lembrou McCann, que também é autor de um romance sobre o bailarino Rudolf Nureyev, "Dancer".

Kennedy, que demonstra um vigor impressionante para seus 82 anos, está relançando no Brasil "O grande jogo de Billy Phelan", um romance recheado de jogadores, gângsters, politicos e jornalistas. Antes do debate, foi projetado um trecho do longa-metragem Ironweed (1987), baseado em outro livro de Kennedy.

O filme foi dirigido por Hector Babenco e com Tom Waits, Meryl Streep e Jack Nicholson nos papéis principais.

À maneira de Balzac, Kennedy faz seus personagens aparecerem em histórias diferentes, ora como protagonistas, ora como coadjuvantes - caso de Daniel Quinn e do próprio Billy Phelan."Em 'Ironweed' falo sobre um jogador, um vagabundo bêbado e endividado, que abandonou sua família após a morte acidental ede seu filho recém-nascido e decide voltar mais de 20 anos depois. Alguns personagens adquirem vida própria".

Personagens marginais
McCann disse compartilhar com Kennedy o interesse pelos marginais: "Sou da classe média de Dublin, mas sou atraído pelos excluídos. Para compor a personagem de uma prostituta no Bronx, fiz pesquisas durante meses, até encontrar a voz ideal para ela, a música certa".

Kennedy afirmou ter levado a vida inteira para compreender Albany, sua cidade natal e cenário da maioria de seus romances. O próximo, passado na Havana pré-revolucionária de 1957, será uma exceçãoo. "Eu ignorava o meu bairro, a cidade onde eu nasci. Quando jovem queria fugir de lá. Então comecei a entrevistar meus pais, meus tios, amigos, fiz pesquisas sobre a história de cada bairro de Albany. Só então comecei a entender as forças subterrâneas que movem as pessoas e explicam seus valores e comportamentos".

"Eu sinto que determinados personagens existem de verdade, que, se eu for a Albany, posso me deparar com os personagens de William Kennedy numa mesa de bar. Isso também acontece com os personagens de James Joyce. De certa forma eles se tornam mais verdadeiros que as pessoas reais,.A literatura tem esse poder, por isso muitos leitores me disseram gostar mais de meu romance 'Dancer' que de biografias de Nureyev", refletiu McCann.

Kennedy complementou a ideia lembrando a forma como William Faulkner inventa uma nova realidade por meio de uma linguagem diferente. "Uma mesma história, contada de forma diferente, se torna uma nova história, pois revela uma compreens o diferente sobre o mundo".