Há cinco anos, os moradores de Londres acordavam e se preparavam para deixar suas casas e enfrentar mais um dia de trabalho, estudo e compromissos. Mas logo cedo a rotina se transformou. Rádio e TV começavam a noticiar, de modo ainda difuso, um número incerto de explosões ocorridas na cidade, com um número desconhecido de vítimas e mortos. À medida que o caos crescia naquele dia 7 de julho de 2005, escrevia-se o episódio mais marcante do século XXI na capital do Reino Unido.
Ao todo, foram quatro detonações isoladas uma das outras, porém quase perfeitamente sincronizadas. A primeira ocorreu às 8h50, no metrô 204, entre as estações Liverpool Street e Aldgate, na zona Leste, matando sete pessoas. A segunda, menos de um minuto depois, foi detonada no trem 216, entre Edgware Road e Paddington, no oeste londrino, matando seis. Uma terceira explodiu segundos depois no vagão 311, que estava transitando no norte da cidade, entre as estações Kings Cross e Russel Square, deixando 26 mortos. A quarta e última bomba foi detonada às 9h47, no ônibus 30, em Tavistock Square, também na região norte, com um saldo de 13 mortes.
Enquanto ainda se lutava para compreender o que acontecia, a cidade mergulhava no caos. Os transportes públicos sofreram fortes paralisações e atrasos. As linhas telefônicas, sobrecarregadas, pararam de funcionar. Alertas se segurança foram emitidos pelo país. A polícia trabalhava destruindo pacotes suspeitos de serem explosivos, enquanto atiradores de elite seguiam homens previamente marcados como possíveis integrantes da rede de terrorismo internacional Al-Qaeda.
Ao todo, as explosões deixaram 52 mortos e cerca de 760 feridos. Também morreram os quatro homens-bomba que cometeram o atentado, todos cidadãos ingleses: Mohammad Sidique Khan, 30 anos, que já casara e era pai; Shehzad Tanweer, 22 anos, que morava com os pais; Germaine Lindsay, 19 anos, cuja namorada estava grávida; e Hasib Hussain, 18 anos, que viva com o irmão e a cunhada. A rede BBC estimou que foram gastos 8 mil libras no atentado, incluindo viagens, aluguel de carros e material para manufatura as bombas.
Motivação
Segundo as investigações da polícia inglesa, o quarteto agiu motivado pelo desagrado com a campanha militar britânica no Iraque, invadido pelos Estados Unidos em 2003 com apoio do Reino Unido, então liderado pelo trabalhista Tony Blair, aliado do presidente americano George W. Bush. Ligações com a Al-Qaeda foram sugeridas, mas a tese não chegou a ser confirmada. O atentado fez reviver o desafio da integração entre europeus e muçulmanos.
A complexidade da questão está exposta no depoimento que Mohammad Sidique Khan, o suicida mais velho e provavelmente líder do grupo, dá num vídeo liberado um ano depois dos ataques.
"Eu e milhares como eu estamos abrindo mão de tudo em nome daquilo que acreditamos. Nossa motivação não vem das comodidades tangíveis que esse mundo tem a oferecer. Nossa religião é o Islã, obediência ao único Deus. Os seus governos eleitos democraticamente perpetuam continuamente atrocidades contra o meu povo em todo o mundo. E o seu apoio a eles é o que torna você responsável direto, do mesmo modo que eu sou responsável por proteger e vingar meus irmãos e minhas irmãs muçulmanas.
Pouco mais de uma semana depois dos ataques, Blair se manifestou sobre o desafio do combate ao terrorismo durante convenção do Partido Trabalhista. "Nós estamos em confronto com uma ideologia do mal. Não se trata de um choque de civilizações - todos os povos civilizados, muçulmanos ou não, sentem repulsa por isso (ataques terroristas). Mas é uma luta global e uma batalha de ideias, de corações e mentes, tanto dentro como fora do Islã."
Alguns dias depois da convenção, o jornal britânico The Guardian publicou uma reportagem comentando uma pesquisa de opinião pública, de acordo com a qual dois terços dos ingleses ligavam os ataques à campanha britânica no Iraque, "a pesar dos esforços do governo de alegar o contrário". O texto citava parte da conclusão da sondagem. "Não há dúvida de que a situação no Iraque impôs dificuldades especiais ao Reino Unido e à grande coalizão contra o terrorismo."
Fragilização e novos ataques
Em 2005, o mundo ocidental vivia intensamente o fantasma do terrorismo, anteriormente concretizado nos ataques de Nova York (2001) e de Madrid (2004). Mas mesmo causando menos mortes (em Nova York morreram 2,976 pessoas, e em Madrid, 191), os ataques de 2005 fragilizaram sentimento de segurança dos ingleses e de sua polícia.
Duas semanas depois dos ataques, em 21 de julho, Londres voltou a viver o medo de um atentado, quando novas bombas foram programadas, mas falharam. Na onda de repercussões do episódio do dia 7 de julho e na busca pelos responsáveis, a polícia britânica baleou e matou o brasileiro Jean Charles de Menezes, confundido com um suspeito e que nenhuma relação tinha com os ataques.
A polícia reconheceu o erro, mas defendeu que os policiais agiam no cumprimento de seus dever: fazer o necessário para defender o país e minimizar o perigo dos terroristas. Era uma amostra das consequências do terrorismo se manifestando do modo mais puro.