A decisão do governo britânico de limitar a entrada de imigrantes qualificados no país deverá afetar parte dos brasileiros que tinham planos de morar no Reino Unido, mas com o cuidado de não impedir a entrada de investidores ou acadêmicos, em sintonia com a tendência internacional de selecionar a migração sem prejudicar a economia.
A análise é de Patrick McGovern, professor do departamento de sociologia da London School of Economics and Political Science, e que atualmente se dedica a um estudo comparativo de políticas migratórias no mundo.
“De modo geral, governo britânico está seguindo uma tendência internacional de distinguir migrantes 'desejáveis' e 'indesejáveis', sob pressão de políticas populistas”, afirmou McGovern ao UOL Notícias. “Ou seja, Robinho não precisa se preocupar... mas talvez seus primos, sim”.
O governo do premiê conservador David Cameron fixou em 24.100 o número máximo de vistos que poderão ser emitidos até abril de 2011 para trabalhadores qualificados com origem em países não membros da União Europeia. Depois dessa data, um novo limite permanente deverá ser instituído, a partir de consultas feitas entre o governo e a classe empresarial britânica. Investidores, pesquisadores acadêmicos e esportistas estrangeiros de elite não serão afetados pela medida.
Esse limite dificulta ainda mais a entrada em um país que já aplica padrões rigorosos para esse tipo de autorização, com base em um sistema de pontuação que leva em conta, principalmente, a idade, a formação, a renda e a fluência em inglês do candidato a migrante.
Veja abaixo a entrevista completa.
UOL Notícias: Que impacto a nova lei deve ter sobre os brasileiros que solicitarem vistos? Quais serão os grupos mais afetados?
Patrick McGovern: A nova lei e o limite proposto devem ter um impacto negativo sobre os solicitantes de visto brasileiros. Se você é de um país de fora da União Europeia e planejava vir ao Reino Unido para trabalhar ou estudar, então você deveria se preocupar.
Isso posto, a aplicação da legislação deverá ser diluída, já que vários grupos se enquadram em isenções. Um caso óbvio seria investidores dos países dos Bric (Brasil, Rússia, Índia e China), por exemplo, que queiram estabelecer ou manter negócios em setores de serviço como tecnologia da informação, alimentação e turismo, e precisam de equipes de seus países de origem para isso.
Outra exceção seriam estudantes, acadêmicos e pesquisadores. Essa é uma questão enormemente significante para as principais universidades britânicas se elas quiserem manter sua reputação global. A minha própria instituição, a London School of Economics, tem mais de mil estudantes dos Bric (China, 562; Índia, 358; Rússia, 103; e Brasil, 69).
Outras isenções ainda podem surgir, tais como funcionários do setor de medicina e enfermagem, e possivelmente também para mercados nos quais há carência de mão-de-obra, como é o caso dos trabalhadores que cuidam de idosos em casa.
UOL Notícias: Quais efeitos podemos esperar para a economia e para a sociedade britânica com a nova política?
McGovern: Os efeitos na economia britânica vão depender principalmente de quão flexível o governo está preparado para ser em relação às necessidades dos empregadores de especialistas. Obviamente, esse não é um bom momento para tomar qualquer medida que pudesse ser vista como prejudicial à economia, especialmente em quaisquer dos seus setores fundamentais, e o governo está ciente disso. Do ponto de vista simbólico, o governo também enfrenta um impasse, no sentido de que deseja ser visto como “duro com a imigração” ao mesmo tempo em que prega “Reino Unido aberto para os negócios”.
UOL Notícias: Como o senhor avalia a decisão do governo?
McGovern: De modo geral, governo britânico está seguindo uma tendência internacional de distinguir migrantes “desejáveis” e “indesejáveis”, sob pressão de políticas populistas. Os Estados Unidos, a Austrália e a Nova Zelândia introduziram limites anuais, e continuam a atrair e admitir grande número de profissionais e migrantes qualificados. Ou seja, Robinho não precisa se preocupar... mas talvez seus primos, sim.