O presidente da Venezuela, Hugo Chávez, passou a controlar um em cada quatro bancos do país, em uma medida para fechar o cerco contra a rede de TV da oposição Globovisión. Hoje, o governo venezuelano é dono ou tem participação em 26% dos bancos do país – há dois anos, essa parcela era de 10%.

Nesta segunda-feira (15), Chávez anunciou que iria intervir no Banco Federal, o oitavo maior do país em volume de depósitos, devido à “pouca disposição do banco em sanear com recursos próprios seus problemas de liquidez”. O que gerou polêmica foi o fato de a instituição ser de propriedade de Nelson Mezerhane, um dos principais diretores da Globovisión.

O canal, o único a manter uma linha editorial crítica em relação ao governo, já foi alvo de várias medidas de Chávez. Antes uma das três maiores redes do país, a Globovisión hoje apresenta sua programação principalmente na TV a cabo e usa a internet para manter sua liberdade. Outra gigante do setor no país, a RCTV ficou sem renovar sua concessão em 2007.

As novas medidas surgem a menos de três meses das eleições legislativas. A oposição diz que as novas medidas servem como tentativa do governo de calar a última TV de oposição.

O Banco Federal é uma instituição privada, com mais de 300 mil clientes na carteira. Em 2009, possuía 152 agências em todo o país e 2.982 empregados. A intervenção vai durar 60 dias. Depois disso, o governo decidirá se reabilita o banco ou liquida suas contas.

Segundo Egdar Hernández, diretor da Sudeban (Superintendência de Bancos), a medida do governo tem como o objetivo "proteger as contas dos clientes do banco". Chávez cumprimentou as autoridades financeiras pela intervenção "a tempo" no Banco Federal.

Desde novembro de 2009, mais de dez bancos, todos de pequeno e médio porte, sofreram intervenções. Alguns deles foram fechados pelo governo Chávez, sob a justificativa de "garantir o saneamento do sistema bancário e financeiro nacional" e evitar abusos.

Bate-boca

Mezerhane se disse "surpreendido" com a decisão do governo e falou que ela tem motivações políticas, não econômicas.

- Aqui está a fatura de onde deveríamos chegar e chegamos. Ontem, o presidente havia dito: 'Guerra de assalto aos bancos' e hoje, vocês podem comprovar. Isto é arbitrariedade, grosseria e falta de respeito. Quem não estiver de acordo com as loucuras [do governo] terá que pagar este tipo de preço.

Chávez defendeu nesta terça-feira (16) a intervenção no Banco Federal e negou qualquer “perseguição” política, como denunciou o dono da instituição.

- Ele anda dizendo, fora do país, que persigo seu banco com a intervenção. Não tenho nada a ver com isto, a culpa é dele por administrar de maneira irresponsável um banco que está em situação de falência.

Na sexta-feira passada, um tribunal de Caracas determinou a prisão do presidente da Globovisión, Guillermo Zuloaga, que está foragido. O governo acusou o empresário em 2009 de guardar 24 veículos importados para fins especulativos.