O plano de sanções econômicas contra o Irã em virtude de seu programa nuclear não proíbe a Rússia de vender mísseis ao país nem interrompe o abastecimento de petróleo iraniano à China. O plano foi apresentado pelos Estados Unidos ao Conselho de Segurança da ONU, na última terça-feira (18).
Rússia e China eram os dois dos cinco membros permanentes do conselho (formado ainda por EUA, Reino Unido e França) mais reticentes em concordar com o plano americano de sanções. O Irã é o terceiro fornecedor de petróleo aos chineses. O país também é um grande comprador de armas dos russos.
Na última terça-feira, a secretária de Estado americana, Hillary Clinton, anunciou o apoio chinês e russo ao plano, abrindo caminho para a punição. O anúncio foi feito um dia depois que Brasil e Turquia assinaram um acordo com Teerã sobre a troca de combustível nuclear, o ponto crucial da crise.
Imprensa critica brecha a russos e chineses
O jornal conservador americano The Washington Post criticou a estratégia do governo do presidente dos EUA, Barack Obama, de negociar pontos nas sanções, abrindo brechas aos russos e chineses.
John Bolton, ex-embaixador dos EUA na ONU, escreveu em artigo no jornal que a posição da Casa Branca "é contraditória aos interesses de longo prazo dos EUA”. Bolton já negociou resoluções contra o Irã anteriormente.
“Não acho que se avança a agenda de não-proliferação global cedendo peças aqui e ali para conseguir outra coisa. Acho que os russos e os chineses veem este governo [Obama] como fraco em suas habilidades de negociação e tomam vantagem disso para tentar inflacionar o preço de seu apoio”, escreveu Bolton.
O professor Marcos Alan Ferreira, da Escola Superior de Propaganda e Marketing (ESPM) e associado ao Instituto Nacional de Estudos sobre os Estados Unidos, concorda que as sanções podem não ser tão fortes quanto queriam os diplomatas dos EUA, Reino Unido e França.
- Essas sanções não exercem o poder de polícia [de controle] sobre os países que negociarem com o Irã. É um grande problema das relações internacionais como um todo. Não há uma autoridade acima das nações [que possam pressioná-las a agirem desta ou de outra maneira]. Na prática, caso as sanções sejam aprovadas, Rússia e China vão continuar fazendo comércio [com o Irã], justamente o que os EUA queriam evitar.
Ferreira alerta que o Brasil, pelo fato de ter costurado o acordo com o Irã e Turquia, corre o risco de ficar isolado caso as sanções sejam aprovadas. O documento de Teerã prevê que o país entregue aos turcos 1.200 kg de urânio a baixo enriquecimento (3,5%). Estes, por sua vez vez, entregarão aos iranianos combustível nuclear a 20% de enriquecimento. O acordo segue as propostas feitas originalmente pela AIEA (Agência Internacional de Energia Atômica).
Obama enviou carta a Lula apoiando acordo com o Irã
Nesta sexta-feira (21), a agência Reuters publicou trechos obtidos de uma carta enviada por Obama a Lula, dias antes da assinatura do acordo em Teerã. Na correspondência, o presidente americano incentiva a negociação feita pelo Brasil.
O conteúdo da carta, no entanto, contradiz a posição da secretária de Estado antes da viagem de Lula a Teerã. Hillary disse o empenho do presidente brasileiro era uma perda de tempo.
A carta contrasta, também, com o posicionamento americano ante o tratado aceito pelo Irã. Os EUA chegaram a agradecer Brasil e Turquia pelos esforços, mas ignoraram o documento, dizendo que os iranianos não desistiriam de enriquecer urânio. No outro dia, a Casa Branca apresentou o plano de sanções ao Conselho de Segurança. Segundo Ferreira, algo parece ter saído fora do roteiro.
- Parece, na minha opinião, que o anúncio do governo iraniano pegou brasileiros e turcos de surpresa. Foram 24 horas até uma resposta sair.
Conforme os termos do acordo, o Irã deve entregar o documento à AIEA na próxima segunda-feira (24).