Nesta sexta-feira (7) faz um mês que um violento deslizamento de terra soterrou ao menos 50 casas e matou 45 pessoas no morro do Bumba, em Niterói, região metropolitana do Estado do Rio de Janeiro. O que antes era o centro da rotina de cerca de 150 famílias, se tornou uma grande área de lixo, terra, escombros, esgoto e silêncio.

Os problemas ainda são muitos. Apesar de dezenas de famílias terem se mudado para 93 apartamentos de um condomínio em Várzea das Moças e do Aluguel Social concedido a 3.152 vítimas da chuva na cidade, ainda há ex-moradores do Bumba que não receberam casas populares nem dinheiro.

Ouvidos pela reportagem do R7, alguns contaram que não conseguiram se cadastrar para receber qualquer tipo de auxílio. Há ainda dificuldade para encontrar imóveis no valor do benefício e próximos de onde as vítimas viviam.

Em meio a tantas reclamações, uma denúncia. Ex-moradores alegam que há mais de uma pessoa de uma mesma família recebendo o Aluguel Social, enquanto muitas famílias continuam sem ajuda do governo. Dizem também que nem todas as pessoas que receberam apartamentos em Várzea das Moças são ex-moradoras do Bumba.

Os casos foram informados a deputados federais do Rio, em Brasília, na quarta-feira (5), durante reunião com a Associação de Vítimas do Morro do Bumba. O Ministério Público informou à Rede Record que também vai investigar essas informações.

Das 200 casas interditadas pela Defesa Civil no entorno da comunidade, ao menos 60 já foram demolidas. Ex-moradores relatam que não tiveram oportunidade de retirar alguns pertences de dentro das casas e que houve saques. Outros reclamam que não há um laudo técnico que comprove o risco do local. E ainda há aqueles que se negam a viver em abrigos e voltaram a ocupar imóveis condenados.

A dona de casa Ana Maria Monteiro, por exemplo, faz plantão no local durante o dia, com a filha de sete anos de idade e o pai de 70, porque tem medo de que cinco casas de parentes sejam demolidas.

– Já destruíram toda a casa da minha irmã, que estava completamente reformada, sem necessidade. Roubaram várias coisas da minha casa, como DVD e furadeira. Estou aqui para tentar recuperar o que posso e impedir que todo o esforço da minha família vire entulho.

Cenário de destruição

Os trabalhos de remoção de terra – previstos para durar no mínimo três semanas, segundo a Secretaria Estadual de Saúde e Defesa Civil – foram interrompidos cerca de duas semanas depois do deslizamento. Das três escavadeiras que trabalharam no local, apenas uma continua em serviço, sendo usada para demolir construções em risco.

O cenário ainda é de destruição, com roupas, brinquedos, móveis e eletrodomésticos sinalizando as vidas perdidas no local. Ao menos dez pessoas não foram localizadas, segundo parentes.

Os carros que foram soterrados continuam estacionados na estrada Viçoso Jardim. Esta via já está liberada ao tráfego e possui apenas alguns avisos para que os motoristas reduzam a velocidade. Nos postes de luz, muitos cartazes de protesto.

Alguns têm as inscrições: "Precisamos saber o que vai acontecer. A comunidade ainda não foi ouvida"; "Não aguentamos mais mentiras. Queremos soluções" e "Jorge Roberto Silveira [prefeito de Niterói], cadê você? Estamos lhe esperando".

O morro do Bumba ainda atrai a atenção de curiosos. Muitos vão ao local, observam por alguns minutos e saem de cabeça baixa. Outros fazem o sinal da cruz e oram com as mãos estendidas. Segundo vizinhos, o movimento é maior principalmente no fim de semana, quando famílias de outras partes da cidade visitam o local da tragédia.

Comunidade quer reassentamento

A principal reivindicação dos ex-moradores, segundo Francisco Carlos, representante da Associação de Vítimas do Morro do Bumba, é que as famílias não sejam simplesmente removidas para outros locais (na maioria das vezes distantes), mas, sim, sejam reassentadas em áreas próximas à comunidade.

– Melhor do que mandar o povo viver em São Gonçalo, Maricá ou Rio de Janeiro é construir prédios em locais próximos ao Bumba. A uma quadra daqui temos uma enorme garagem de ônibus desativada, no Centro há prédios públicos abandonados e até armazéns completamente vazios. Vamos lutar para retomar nossas vidas.

Segundo a assessoria de imprensa da prefeitura, o prefeito Jorge Roberto Silveira assinou nesta quinta-feira (6) decreto de desapropriação de uma área de 5.000 metros quadrados, onde serão construídas moradias para os desabrigados das enchentes. No local serão erguidos nove prédios residenciais, com 180 apartamentos.

O terreno está localizado na estrada Viçoso Jardim, esquina com a rua retiro Saudoso, próximo ao morro do Bumba. Os imóveis terão dois quartos, com área privativa de 43 metros quadrados, de acordo com a assessoria. O condomínio contará ainda com área de lazer e estacionamento. Não há prazo para a conclusão da obra.

Vítimas ocupam 50 abrigos

A Prefeitura de Niterói informou que vítimas da chuva ainda ocupam 50 abrigos, entre eles, 12 escolas estaduais e 13 municipais. Os outros são formados basicamente por igrejas e clubes. Cerca de 5.000 alunos estão sem aulas. No entanto, foi elaborado um plano de reposição, no qual professores passam trabalhos que são entregues em seguida para correção e avaliação dos estudantes.

Na Escola Estadual Doutor Memória, no Cubango, há 111 pessoas abrigadas, segundo a diretora Jacinta Bastos. Duas famílias moravam no morro do Bumba: uma viúva com seus quatro filhos e a família do seu Ivo Barbosa.

– Estou aqui há um mês com minha esposa e meus quatro filhos pequenos. Dividimos uma sala de aula com outras três famílias. Já recebi o Aluguel Social, mas ainda não achei uma casa que eu possa pagar com R$ 400, nem mesmo em favelas. Está tudo muito caro.

O município informou que já iniciou a remoção de algumas famílias que estão em escolas públicas. Elas estão sendo levadas para um alojamento localizado no 3º Batalhão de Infantaria do Exército, no Barreto. No local, há uma cozinha industrial, refeitório, área de recreação e posto de saúde.

Cadastramento no Aluguel Social

Ainda de acordo com a assessoria de imprensa da prefeitura, esta sexta-feira é o último dia para que as vítimas da chuva na cidade possam se cadastrar para receber o benefício ou então corrigir eventuais erros de cadastro na quadra da escola de samba Viradouro, no Barreto, onde foi montado um posto de atendimento.

Quem não conseguir comparecer ao local entre 10h e 16h deve procurar a Secretaria de Assistência Social, na rua Coronel Gomes Machado 281, Centro de Niterói, a partir da próxima segunda-feira (10).

Em junho, os beneficiados com os R$ 400 mensais do governo não vão mais precisar ir à quadra da escola de samba para receber o dinheiro. A prefeitura está em negociação com um banco para que as pessoas possam sacar o valor do Aluguel Social no caixa através de ordem de pagamento. Ainda não há data oficial, mas isso deve acontecer no início do mês, segundo as autoridades