O Reino Unido terá o primeiro debate televisionado entre os líderes dos principais partidos nesta quinta-feira, abrindo uma nova era na história da política britânica, a três semanas das eleições gerais mais concorridas e imprevisíveis das últimas décadas.

Participam o primeiro-ministro trabalhista, Gordon Brown, o líder da oposição conservadora, David Cameron, e o liberal democrata Nick Clegg. Os três estão acostumados a se enfrentar semanalmente no Parlamento.

Um grupo de jornalistas selecionou as perguntas, que serão feitas diretamente por membros da audiência de 200 pessoas. Os políticos não terão acesso às perguntas antecipadamente e não poderão confrontar-se diretamente.

O primeiro debate, com 90 minutos de duração, terá como foco a política interna e será transmitido pelo canal ITV no horário nobre.

Há mais dois debates programados antes das eleições de 6 de maio: um sobre política externa, no dia 22, e outro sobre economia, em 29 de abril.

Os debates sempre foram barrados no Reino Unido por alguns partidos --geralmente o governante--, apesar das tentativas de organizá-los desde 1964. Desta vez, as emissoras ameaçaram deixar espaços vazios e os políticos se renderam.

Eleitorado britânico

Calcula-se que o debate possa ser visto por 10 milhões de pessoas --uma audiência alcançada apenas pelos reality shows ou novelas mais populares.

"Uma audiência britânica tende a focar numa boa 'tirada'", diz Luntz. "Você pode ter um desempenho ruim por 88 minutos, mas uma única linha ou frase pode afetar o resultado final."

Conquistar votos será fundamental nestas eleições. As pesquisas sugerem que esta pode ser a primeira vez desde 1974 em que nenhum partido britânico conquiste uma maioria absoluta no Parlamento. O peculiar sistema eleitoral britânico ainda favorece os trabalhistas, apesar de pesquisas mostrarem os conservadores à frente.

Os eleitores britânicos ainda digerem escândalos sobre gastos inapropriados que atingiram os três principais partidos no ano passado. Parlamentares foram pegos pedindo reembolso de filme pornô a candelabros, enquanto o país entrava em recessão.

Gordon Brown

O atual premiê Gordon Brown, 59 é talvez o mais desesperado dos três candidatos, mas pesquisas dizem que as expectativas são tão baixas em relação ele, que mesmo o desempenho mais modesto poderia ser visto como uma vitória.

Apesar de Brown ser elogiado por sua inteligência, ele constantemente aparece atrapalhado no vídeo --usa as mesma frases, fala de forma monótona e frequentemente aparenta estar desarrumado ou cansado.

Para analistas, o maior risco para Brown é querer parecer demais aquilo que não é --ele foi alfinetado por um vídeo recente divulgado no site YouTube em que sorria demais.

Para Adam Boulton, moderador do segundo debate no canal Sky News, a rigidez do formato poderia favorecer o "austero e estrito" Brown. "Não vai despertar muitas expectativas, mas debaixo disso há um ser humano inteligente e sensível. E isso pode surtir efeito", disse.

David Cameron

As expectativas mais altas recaem sobre o conservador David Cameron, 43, que lidera as últimas pesquisas de intenção de voto.

O telegênico e desenvolto líder "Tory" é o que "tem mais a perder porque encabeça as pesquisas e as pessoas esperam que ganhe", disse John Curtice, cientista político da Universidade de Strathclyde. Mas os debates também poderiam "oferecer a oportunidade" de dar uma estocada nos trabalhadores, no poder há 13 anos, segundo ele.

Articulado, privilegiado e casado com uma filha de aristocratas, Cameron vem tentando convencer os eleitores de que o partido de Margaret Thatcher se preocupa com os pobres e menos favorecidos.

Frequentemente comparado com o carismático Tony Blair, que levou o Partido Trabalhista de volta ao poder há 13 anos, Cameron várias vezes é visto andando de bicicleta ou fazendo vídeos de sua vida familiar.

"A chave para Brown derrotar Cameron será colocá-lo na defensiva", sugere Frank Luntz, consultor político republicano dos EUA.

Nick Clegg

Clegg, 43, é o menos experiente dos três políticos e considerado o mais cabeça quente. Mas, para o liberal democrata, os debates serão uma chance única de sair do relativo anonimato e enfrentar seus rivais de igual para igual.