Ficar vestido de presidiário e preso em uma gaiola suspensa a cerca de cinco metros do chão por um andaime, à beira da Linha Vermelha, no sentido Centro, na altura da Vila do João, em Bonsucesso, foi a forma que o catador Luiz Barreto Bispo encontrou para protestar contra a construção do muro de acrílico no conjunto de favelas da Maré e contra a falta de médicos nos hospitais.

“É uma contradição eles quererem paz no Oriente Médio, unindo palestinos e judeus, e, ao mesmo tempo, construírem esse muro. Esse muro da Maré é o apartheid. Além disso, é uma vergonha uma comunidade não ter pediatra nem ortopedista”, explicou Luiz, que está desde às 8h30 desta segunda-feira (12) na gaiola, onde ele pretende ficar pelo menos mais 30 dias. Segundo ele, a Unidade de Pronto Atendimento da Maré está sem médicos.

'Presidiário solitário'
Para o catador, o muro serve para dividir a comunidade do resto da sociedade. Ele explicou a roupa de presidiário: “Eles não querem prender a gente? Eu aqui sou o presidiário solitário”.

Bispo é o mesmo que construiu uma casa flutuante no Canal do Cunha, próximo à Ilha do Fundão, onde mora até hoje.

Penico, comida e cobertor
A gaiola, que ele levou uma semana para construir, fica na Vila do João, subúrbio do Rio. A suspensão de ferro quem fez foi o amigo dele, que trabalha com solda. Nem para ir ao banheiro o catador vai sair da gaiola. Luiz levou um penico e uma garrafa.

 

A comida chega através de uma corda e é levada por amigos e familiares. Ele é viúvo e tem um filho e um neto. A luz, segundo ele, vai ser ainda instalada por um amigo eletricista.

Para se proteger da chuva, Luiz levou plástico para cobrir a gaiola em volta e fez um teto resistente. Além disso, a gaiola tem cobertor e jornais.

 

Casa de garrafa Pet

“Sou favelado que não taco fogo em ônibus nem fecho vias. Protesto tem que ser feito com criatividade e sem prejudicar a vida de ninguém. O brasileiro é um povo criativo e tem que canalizar essa criatividade para defender os seus direitos”, desabafou o catador.

 

Luiz Bispo é o mesmo que, em 2007, ficou famoso ao construir uma casa flutuante feita de garrafas pet em pleno Canal do Cunha, que tinha até garagem.