Está longe de terminar a queda de braço entre a Santa Sé e o jornal americano The New York Times.

Esse jornal publicou matérias voltadas a informar ter o então cardeal Joseph Ratzinger, quando dirigia a Congregação para a Doutrina da Fé (ex-Santo Ofício), acobertado grave caso de pedofilia a envolver o clérigo Lawrence Murphy.

O padre Murphy, –pedófilo confesso–, abusou sexualmente de 200 crianças da John´s Scholl do estado americano de Wisconsin, de 1954 a 1974.

As matérias jornalísticas reportam-se ao arcebispo William Cousin que, em 1974, afastou Murphy do colégio por pedofilia.

Mais ainda, revelam as matérias uma carta em que o arcebispo Rembert Weakland solicitava, –junto à Congregação dirigida por Ratzinger–, providência disciplinar contra o padre Murphy.

O jornal The New York Times recuperou, também, a afirmação do arcebispo Rembert Weakland que ressaltou haver partido da Congregação governada por Ratzinger a ordem que suspendeu o processo contra o padre Murphy.

Ontem, membros da Santa Fé resolveram exibir os músculos. Dois dos seus membros saíram a atacar o jornal por “imprecisões cometidas” e a defender o papa Bento XVI.

–2. O arcebispo Rembert Weakland, –que foi o grande acusador na matéria do The New York Times—já se envolveu em caso de homossexualismo com uma ex-estudante de teologia, maior de idade. A afirmação é do padre Thomas Brundage, entrevistado da rádio Vaticano e com site na web.

A velha tática de desqualificar o acusador foi utilizada, lamentavelmente, pelo padre Brundage, que tinha sido encarregado, à época do escândalo, a colher elementos contra o pedófilo padre Murphy, falecido em 21 de agosto de 1998.

Em síntese, o arcebispo Weakland, –na distorcida visão do padre Brundage–, não era denunciante qualificado para revelar, indignado, casos de pedofilia a vitimar 200 crianças. Isto porque se envolveu em caso de homossexualismo com um estudante de teologia, maior de idade.

Para o padre Brundage, testemunha não é quem presencia fatos, mas apenas pessoas sem pecados à luz das regras da Igreja: homossexualismo, para a Igreja e para o papa, é uma doença.

Ainda mais. Afirmou o padre Brundage que o processo contra Murphy só foi extinto em razão da sua morte e não se reconheceu a prescrição.

O referido padre Brundage, na entrevista à oficial rádio do Vaticano, esqueceu-se do documentado pelo jornal The New York Times, que traz conclusões diversas.

Com efeito. Segundo o jornal The New York Times, o bispo de Milwaukee, Rembert Weakland, enviou, oficialmente, duas cartas-denúncia a Ratzinger, quando este presidia o ex-Santo Ofício.

A matéria jornalística está documentada. Os documentos foram fornecidos pelos advogados Jeff Anderson e Mike Finnegan. Eles são advogados de cinco vítimas de Murphy e conhecidos por fazerem parte de um seleto grupo de advogados especializados, nos EUA, em proposição de ações milionárias na Justiça norte-americana.

As cartas com denúncias contra Murphy foram enviados a Ratzinger em 1996.

Nenhuma dessas duas cartas foi respondida por Ratzinger.

Passados 8 meses, o bispo Weakland recebeu resposta às duas missivas enviadas. A resposta não foi fornecida diretamente por Ratzinger. Acabou dada por Tarcisio Bertone, o segundo homem da hierarquia do ex-Santo Ofício.

Num primeiro momento, o cardeal Bertone ordenou a instauração de um processo secreto para a destituição do padre Murphy. Mas, um ano depois, Bertone mudou de idéia. Disse que o padre Murphy estava mal de saúde, que enviara uma carta de arrependimento a Ratzinger e os fatos tinham ocorrido há mais de 30 anos. Bertone finalizou a carta com a recomendação para adoção de medidas pastorais, ou seja, nada de processo disciplinar. Apenas advertências para conduzi-lo ao arrependimento e restrições territoriais para celebração da eucaristia.

Preocupado, o arcebispo de Weakland voltou a escrever a Bertone. Comunicou que Murphy jamais havia revelado remorsos pelos seus atos. Ou seja, era um pedófilo assumido.

Bertone, apesar do alerta, mostrou-se irredutível e concluiu pela inexistência de elementos para iniciar um processo.

–3. Mais maneiro foi o cardeal norte-americano Willian Joseph Levada, que atualmente governa a Congregação para a Doutrina da Fé e sucedeu Ratzinger.

Para o titular do ex-Santo Ofício, “ a reconstrução feita pelo New Yor Times foi imprecisa e baseada em mentiras”.

–4.PANO RÁPIDO.

Este texto foi escrito quando estava no aeroporto de Fiumicino e esperava o vôo Alitália para Guarulhos.

Deixo Roma com a sensação que o Siroco, também conhecido como o vento do deserto do Saara e que atinge a Itália, chegou no além Tevere, ou seja, circula pelo Vaticano.

É bom que a tradicional tempestade de areia causada pelo Siroco não encurte visões e, efetivamente, permanece a iniciativa de Ratzinger de tolerância zero à pedofilia.