Um mês depois de ter lançado o pacote de 22 projetos da Salvador Capital Mundial, o prefeito João Henrique Carneiro (PMDB) segue sem revelar quem são seus patrocinadores. A TARDE apurou, no entanto, que a Fundação Baía Viva é uma das doadoras e é gerida por empresários do setor imobiliário, entre eles Carlos Seabra Suarez, ex-OAS. João Henrique diz que desconhece a ligação da entidade com o empresariado: “pode ser pura especulação”.

Enquanto isso, o prefeito enfrenta críticas de entidades como Crea-BA (Conselho Regional de Engenharia, Arquitetura e Agronomia) e Instituto dos Arquitetos do Brasil na Bahia (IAB-BA) de que as propostas servem aos “interesses empresariais” e não foram debatidas abertamente.

A oposição na Câmara Municipal fará uma audiência pública, com data ainda indefinida, e convidará o prefeito e os projetistas para explicarem as doações (leia no texto abaixo). O Ministério Público, por sua vez, analisa abertura de inquérito pela não realização de debates com a sociedade civil.

A Fundação Baía Viva pagou para o escritório paulista Brasil Arquitetura elaborar uma proposta denominada Nova Cidade Baixa e a deu de graça para a Prefeitura. De acordo com o arquiteto Marcelo Ferraz, dono do escritório, o projeto exigiu sete meses de trabalho de oito arquitetos. Ele disse que cobrou valores de mercado, “como qualquer trabalho”, mas não quis revelar o montante.

Carlos Suarez é, ao mesmo tempo, presidente do Conselho Curador da Baía Viva e proprietário da Patrimonial Saraíba Ltda, uma, dentre outras empresas dele, que detém terrenos e empreendimentos na Avenida Luís Viana Filho (Paralela), como o Residencial Greenville.

Fundação e empresa funcionam no mesmo local – Edifício Citibank, Comércio. Na Saraíba, Suarez é sócio do advogado Francisco José Bastos, que, por sua vez, é dono da Prima Participações, também dono de terras na Paralela.

Suarez estava na Europa até o fechamento desta edição e não retornou os recados, mas outro gestor da Fundação, o engenheiro Gustavo Sá, negou que a doação vise contrapartida empresarial.

A proposta Nova Cidade Baixa inclui intervenções do Campo Grande à Ribeira, com construção de Veículo Leve sobre Trilhos, quatro ascensores entre Cidade Alta e Baixa, e abertura da vista para o mar a partir de esplanadas. Ela foi lançada como parte do pacote Salvador Capital Mundial no dia 28 de janeiro pelo prefeito, com a presença do governador Jaques Wagner e do ministro Geddel Vieira Lima (Integração Nacional).

Ponte Pituaçu - Entre os projetos também há um oferecido por José Filgueiras Lima, o Lelé, do Instituto Habitat. Trata-se da Ponte de Pituaçu, na Av. Atlântica, que passaria entre a Av. Octávio Mangabeira (orla) e a Paralela. A proposta beneficiaria diretamente os donos de terreno na redondeza.

De acordo com o representante da Baía Viva, Gustavo Sá, Lelé também participou da coordenação do projeto da Cidade Baixa, doado pelos mesmos empresários donos de áreas na Paralela. Sá se apresenta como presidente da instituição, apesar de Suarez aparecer como ocupante do cargo em registro oficial.

“Eu sou só presidente da Fundação. A parte técnica (dos projetos) foi feita pelo boom (sic) de arquitetos, de que inclusive o Lelé participa. Lelé participou da coordenação e das ideias também”, disse Sá, que presta serviço para as empresas de Suarez e seu sócio, Francisco Bastos. Este disse que não comentaria o assunto no momento.

Para o diretor do Instituto dos Arquitetos (IAB-BA), Paulo Ormindo, as construções da Av. Atlântica e da Ponte de Pituaçu valorizam os loteamentos da Paralela. “É evidente que gera uma valorização. Por isso que o setor imobiliário ofereceu os projetos à Prefeitura”, disse. “O acesso ali passou a ser dificultoso por conta dos engarrafamentos da Paralela e empacou as vendas. Então depende de um acesso”.