A queda de barreira que causou mais de 40 km de congestionamento na tarde desta quarta-feira (10) na Rodovia Régis Bittencourt prejudicou a vida dos motoristas que trafegavam na pista sentido Curitiba. Em meio às centenas de caminhões, carros e caminhonetes, havia quem estivesse feliz com as filas desde Barra do Turvo, a 322 km de São Paulo, onde ocorreu o deslizamento de terra.
O motorista Fábio Aparecido de Arruda, de 29 anos, era um dos poucos com sorriso estampado no rosto. Morador de um sítio em Cajati, a 230 km da capital, ele aproveitou a proximidade de sua casa com a estrada e, munido de um carrinho de mão, de um isopor cheio de gelo e muitas bebidas, resolveu ganhar um dinheiro extra.

 

“Fiquei sabendo do que aconteceu e peguei refrigerantes e cervejas para vender”, contou, enquanto abria o isopor e fazia mais um cliente “feliz”. Fazia muito calor na região durante a tarde. O tempo instável trazia chuvas intermitentes que, em vez de refrescar, tornavam o ar mais abafado. Um suplício para quem não aguentava mais ficar dentro do veículo. “Saí para fumar, mas tive que voltar por causa dessa chuvinha”, afirmou, com cara de poucos amigos, a comerciante Silvana Pinheiro, de 33 anos. A mulher, que saiu de Cajati no início da tarde, esperava chegar em, no máximo, 30 minutos a sua casa, em Barra do Turvo. “Estou há mais de três horas aqui, nem sei quando chegarei”, disse a comerciante por volta das 15h da quarta. “Ainda bem que não tenho compromisso”, acrescentou.

Menos aliviado estava o caminhoneiro Ezequiel da Conceição, de 33 anos. O homem pretendia levar um carregamento para Joinville, em Santa Catarina, até a tarde da quarta-feira. “Agora, nem tenho ideia de que horas chegarei. Se continuar parando, vou tirar um cochilo aqui”, disse. Entre 13h e 18h30 desta quarta-feira, o caminhoneiro não havia percorrido nem 15 quilômetros na rodovia.

O tráfego na Régis Bittencourt fluía de forma lenta durante a tarde. Um desvio no local do deslizamento foi feito pela concessionária Autopista e os veículos eram liberados aos poucos. A reportagem do G1 levou sete horas para trafegar apenas um terço dos 40 km de congestionamento.

 

Amizade

Nos longos minutos entre as liberações do tráfego, motoristas e passageiros aproveitavam para esticar as pernas e conversar com outras pessoas. Algumas delas acabavam se tornando “grandes companheiras”. É o caso dos caminhoneiros Olívio Barbosa, de 57 anos, e Adelmar da Silva, de 49 anos. “A gente costuma dizer que caminhoneiro não se conhece, se tromba”, brincou Silva.

 

Os dois se conheceram em uma das dezenas de paradas forçadas. Ambos reclamaram da demora na estrada. “Isso é muito comum, as pessoas não deixam as outras passarem quando a estrada é liberada e dá nisso”, teorizou Silva, enquanto aguardava sentado ao lado do amigo sobre o mato às margens da estrada.

Durante a tarde, crianças e adultos sem o que fazer aproveitavam a natureza da região para passar o tempo. Por volta das 17h, um grupo se arriscou a tomar banho em uma pequena queda d’água. “Isso é uma maravilha, só falta uma gelada”, disse o caminhoneiro Adelmar da Silva. Em seguida, porém, o trânsito voltou a abalar o humor geral dos motoristas. Em muitos momentos, eles, sem aparente razão, buzinavam para outros condutores.

 

Como não há previsão para a liberação da pista, a concessionária que administra a Rodovia Régis Bittencourt está recomendando aos motoristas que adiem a viagem para a região Sul do país por esta via de acesso. A concessionária afirma que a operação de remoção de terra ocorre normalmente. São usadas quatro retroescavadeiras e seis caminhões.