Embora reduza a área de solo permeável na Marginal Tietê, a construção de uma pista auxiliar na via terá pouca influência nas enchentes que atingem a cidade de São Paulo, na avaliação de engenheiros e arquitetos consultados pelo G1.
Segundo os especialistas, a impermeabilização da Bacia Hidrográfica doTietê é um dos principais causadores das inundações que atingem a região metropolitana. Eles explicam, porém, que a área da Marginal é pequena na extensa superfície impermeabilizada da bacia, que ocupa 5 mil quilômetros em cerca de 70% da Grande São Paulo, conforme dados da Universidade de São Paulo (USP).A reportagem faz parte de uma série do G1 sobre um dos principais problemas dos paulistanos atualmente: as causas e consequências dos temporais. Confira ao lado o cronograma das reportagens.
Desde o fim de dezembro, as chuvas têm atingido a capital quase que diariamente. Em janeiro, os níveis de chuva bateram recorde e os alagamentos fizeram parte do dia a dia do paulistano.
Nova Marginal
O governo iniciou a construção, em junho de 2009, de uma pista auxiliar entre a pista expressa e a local da Marginal Tietê para desafogar o trânsito. Em alguns trechos, os canteiros centrais vão deixar de existir, diminuindo a área permeável. Isso significa que a água que o solo sugava naquele local, vai escoar por outro caminho.
Como compensação ambiental, até mesmo para evitar alagamentos, o governo fará plantio de árvores no entorno e a criará um parque, o Parque Várzeas do Tietê, previsto para 2016.Segundo dados do próprio governo, a obra reduzirá em 19 hectares - cerca de 19 campos de futebol - a área de solo permeável na Marginal.
"Os que hoje se sensibilizam com a remoção de algumas árvores no canteiro central da via – cerca de 600 foram retiradas (das quais mais de 100 já se encontravam condenadas) e outras 1.000 transplantadas para outras partes do canteiro – certamente se surpreenderão com a quantidade de árvores que será plantada até a conclusão da obra", diz o governo do estado em site sobre a Nova Marginal.
O governador de São Paulo, José Serra, afirmou que o impacto da obra da Marginal para agravar as enchentes é "zero".
Debate
Para o engenheiro hidráulico José Rodolfo Scarati Martins, professor da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP), especialista em drenagem urbana e ex-coordenador de projetos do Centro Tecnológico de Hidráulica do Departamento de Águas e Energia Elétrica (DAEE) do estado, o grande problema das enchentes é a impermeabilização da bacia do Tietê como um todo.
"A gente tem a Bacia Hidrográfica do Tietê que está exposta à chuva e que tem ordem de grandeza de 5 mil quilômetros. A marginal é ínfima dentro disso tudo. O problema é a gente ter ocupado a várzea do Rio Tietê. Por isso, hoje travamos uma luta com o rio. (...) Com a impermeabilização da bacia, a gente tirou um espaço que a natureza contava ocupar. A ampliação da Marginal não mexe em nada com isso", avalia o especialista. A também professora da Escola Politécnica da Universidade de São Paulo (USP) e engenheira Mônica Amaral Ferreira Porto concorda com o colega.
"A área impermeabilizada das novas pistas é absolutamente inexpressiva face à área impermeabilizada de toda a bacia que contribui para a calha do Rio Tietê."
O arquiteto e urbanista Jorge Wilheim, um dos fundadores do Movimento Nossa São Paulo e ex-secretário municipal de Planejamento, avalia que, apesar de não contribuir para piorar as enchentes, "a obra não melhora a situação".
"Aumenta em quatro pistas a impermeabilização do Vale do Tietê. O que critico é que vai na contramão do que se faz nas vias expressas, alargar pistas para 10 em cada lado. Podia se fazer pistas paralelas à Marginal."
Wilheim destaca que deve ser feito o desassoreamento do Rio, ou seja, a retirada de terra, para que caiba mais água e não ocorra o transbordamento.
Diretor do Sindicato dos Engenheiros no Estado de São Paulo (Seesp), Gley Rosa também não vê grandes prejuízos de imediato, mas alerta que é preciso acompanhamento constante.
"É importante acompanhar a obra. Você faz o projeto, mas é preciso verificar se na execução não ocorreu algum desnível que pode favorecer enchentes."