Apesar de o consumo de energia ter batido recorde pelo terceiro dia consecutivo nesta quarta-feira (3), especialistas e o governo afirmam que não há risco de escassez de energia elétrica no Brasil para os próximos anos, desde que os investimentos previstos para o setor sejam mantidos.
Nos últimos três dias, as altas temperaturas e a retomada da produção industrial levaram o consumo a patamares elevados. Nesta quarta, a carga consumida chegou a 70.170 megawatts (MW) às 14h58 no Sistema Interligado Nacional (SIN) - a média diária de consumo em 2009 foi de 50.643 MW. O SIN concentra 97% da energia produzida no país.
Para 2010, a previsão é de média diária de 53 mil MW de consumo. O número fica bem abaixo da capacidade de produção de energia no país, atualmente em 107 mil MW, conforme os dados da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel).
Ao G1, o Ministério de Minas e Energia informou que "não existe nenhum risco de racionamento" de energia no Brasil. "Os reservatórios das hidrelétricas estão cheios, e a previsão é que em 2010 entrem no sistema mais 7 mil MW de energia. O Brasil tem uma capacidade instalada de 107 mil MW, portanto não estamos no limite", informou o órgão por e-mail.
A ministra da Casa Civil, Dilma Rousseff, também afirmou em entrevista no Rio de Janeiro que não há motivo de preocupação. "O Brasil não está passando por nenhum problema de falta de energia. É normal que ocorra no verão o aumento do consumo devido ao aumento da demanda, ao pico de aparelhos de ar-condicionado ligados."
O físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor do Coppe (Instituto de Pós-Graduação e Pesquisa de Engenharia da Universidade Federal do Rio de Janeiro) e ex-presidente da Eletrobras, afirma que o recorde do consumo já era previsto. "Com a alta temperatura e o crescimento da parcela industrial, é natural que a cada dia tenha mais consumo. É um processo natural."
Segundo Pinguelli, a folga entre a demanda e a capacidade de produção precisa se manter para evitar falta de energia no futuro. "A partir de 2001, iniciamos um processo de recuperação da capacidade de produção. Mas não se pode parar com os investimentos", afirma, dizendo que a manutenção do crescimento da capacidade é o que vai garantir a oferta de energia no futuro.
"Se o governo expandir o sistema elétrico adequadamente, não teremos problema", destaca Pinguelli.
O coordenador do Instituto de Eletrotécnica e Engenharia (IEE) da Universidade de São Paulo (USP), Ildo Sauer, afirmou também que o Brasil não enfrenta problemas com a capacidade de produção.
"É importante ter claro que a potência do sistema nunca foi problema e nem deve ser." Para Sauer, os problemas atuais são na manutenção na transmissão -
como o que gerou apagão em novembro em diversos estados.
Interrupção de energia
Para o engenheiro elétrico Luiz Pereira de Azevedo Filho, que já trabalhou em Furnas e atualmente é secretário-geral do Instituto de Desenvolvimento Estratégico do Setor Energético, o problema na energia elétrica no Brasil está na distribuição, ou seja, no sistema que leva essa energia até a casa do consumidor. "O problema está se dando nas distribuidoras. No Rio, tem tido apagões frequentemente. Há um problema de falta de investimento na distribuição."
Azevedo Filho destaca que o Brasil tem ampliado adequadamente a geração de energia. "É preciso sempre trabalhar com bastante antecipação para aumentar a capacidade de geração."
Termelétricas
Para não sobrecarregar demais as usinas hidrelétricas, o ONS informou que colocou em operação mais usinas termelétricas.
O Ministério do Meio Ambiente disse que constantemente as termelétricas são colocadas em operação.
"O procedimento do operador é de gerenciar o sistema de acordo com as necessidades de operação. Ele tem autonomia para fazer a geração e colocar em operação as usinas necessárias para garantir a segurança do sistema. Isso (acionar as termelétricas) acontece o tempo todo. O sistema de geração brasileiro é hidrotérmico, ou seja, prevalece usinas hidrelétricas e usinas térmicas. Sempre há um mix de usinas operando, térmicas e hidrelétricas. O fato de usinas térmicas entrarem em operação não significa nada de anormal no sistema. É procedimento padrão."
Até 2016, o governo estima colocar em operação pelo menos mais 13 mil MW de capacidade de carga nas hidrelétricas - considerando aquelas que já têm licença ambiental e contrato de concessão assinados, como Jirau e Santo Antonio, ambas em Rondônia.
Considerando as termelétricas, são mais 2,7 mil MW sem impedimentos legais. Mais de 9 mil MW das termelétricas aguardam licença ambiental.
Em 2010, a carga prevista para entrar em operação das termelétricas é maior que a das hidrelétricas. Há previsão de entrada no sistema de 2,4 mil MW nas termelétricas contra 2,2 mil nas hidrelétricas, o que é alvo de críticas.
O físico Luiz Pinguelli Rosa, diretor do Coppe/UFRJ, diz que a energia das termelétricas tem maior custo financeiro e ambiental.
"Do ponto de vista de energia não há motivo. O sistema hidrelétrico está com muita água. Uma razão (para ampliar o espaço das termelétricas no sistema) é elétrica, para equilibrar o sistema e evitar sobrecarga nas linhas. Mas o uso só deve ocorrer em último caso."
O especialista diz, porém, que as termelétricas que usam energias renováveis, como o bagaço da cana-de-açúcar, devem ser explorados.